terça-feira, 30 de novembro de 2010

Conheça os sete hábitos dos profissionais altamente eficazes

Por: Karla Santana Mamona
30/11/10 - 10h55
InfoMoney


SÃO PAULO – Alguns profissionais  se destacam mais do que os outros no mercado  de trabalho porque são considerados eficazes. Segundo o diretor de Conteúdo e Facilitação da Franklin Covey, Luciano Meira, estas pessoas transmitem uma imagem de maturidade.
“A eficácia pode ser definida como maturidade. Este profissional sabe ouvir os outros. A sua relação interpessoal é bem trabalhada, por isso ele sabe conviver, construir e negociar, o que faz com que esta pessoa esteja sempre mais perto do resultado”, explica o especialista.
Conhecimento técnicoMeira afirma ainda que, para que um profissional seja considerado altamente eficaz, é necessário que ele tenha conhecimento técnico. Entretanto, só isso não é o suficiente. “Foi-se o tempo em que o profissional era considerado o melhor por causa do seu conhecimento. Isso é facilmente substituível. Atualmente, o que diferencia um profissional é o seu comportamento”, explica o especialista.
Para tornar-se eficaz, é necessário desenvolver alguns hábitos, que, de acordo com Meira, podem levar um determinado tempo, já que, para se tornar um hábito, as atitudes devem ser repetidas até serem naturais. “Este hábito, depois de estabelecido, continua automaticamente”, diz.
HábitosMeira aponta os hábitos que tornam um profissional eficaz. As dicas abaixo foram desenvolvidas pelo consultor Stephen R. Covey e publicadas no livro “Os sete Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes” (Ed. Best Seller). Confira abaixo:
  1. Ser proativo: ter iniciativa, pegar para si as responsabilidades;
  2. Ter visão: saber definir missão e valores. Fixar nas metas pessoais e profissionais;
  3. Ter foco: focar nas atividades mais importantes;
  4. Ganha-Ganha: ter capacidade de negociar. Lembrar-se de que os benefícios devem ser para ambas as partes;
  5. Saber escutar: procurar entender as outras pessoas, não ver somente o seu lado. Procurar trabalhar a comunicação interpessoal;
  6. Criar sinergia: buscar trabalhar com pessoas diferentes. A adversidade é uma fonte de inovação;
  7. Afinar o instrumento: o auto desenvolvimento deve ser contínuo em todos os sentidos. É importante atingir o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

FELICIDADE REALISTA

por Martha Medeiros

A princípio, bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote
louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos.
Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magérrimos, sarados, irresistíveis.
Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema: queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas. E quanto ao amor? Ah, o amor... não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos jantar à luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito.

É o que dá ver tanta televisão.

Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista. Ter um parceiro constante, pode ou não, ser sinônimo de felicidade. Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com um parceiro, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio.
Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo,
usufruí-lo. Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o
suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado. E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade.

Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável. Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar. É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza, instiga e conduz mas sem exigir-se desumanamente. A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio. Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade. Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se.

Invente seu próprio jogo. Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Ela transmite paz e não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude no nosso coração. Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

#Anos80 - Entra e Sai de Amor

Quem já tem mais de 30 anos, lembra com certeza, dessa trilha que embalou as baladas românticas nas discotecas dos anos 80. Boa lembrança...http://www.youtube.com/watch?v=CO_N61stH_0

Essa música foi tema de Padre Albano e Tânia na novela Roque Santeiro, grande sucesso da Rede Globo, no ano de 1985.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Biografia de Alexandre Lana Lins

Biografia de Alexandre Lana Lins
Por Carla de Paula ( @Cadridepaula)


Jornalista, escritor, ator e sonhador... Assim é este mineirinho da gema nascido e criado em BH, mas com grande simpatia e boas lembranças de Piranga, cidade da Zona da Mata Mineira.

Nascido em fevereiro de 1977, este pisciano tem como berço uma família com mais 4 irmãos, sendo ele o segundo filho e mais velho dos homens. Carinho, respeito e compreensão não lhe faltavam em casa, bem como a companhia constante de irmãos e primos nas brincadeiras de infância.

Seu envolvimento com as Artes deu-se desde muito cedo, nas viagens pelo Sítio do Pica-pau-amarelo. As histórias de Lobato despertaram no menino sonhador as primeiras incursões na dramaturgia, quando imitava no quintal da sua casa as personagens do programa. Depois veio a admiração pelos Trapalhões – e surgiu os “Trintalhões”, o trio formado pelos irmãos, que se apresentava nas festas de família. Festas aliás que estão devidamente registradas em vídeos que mostram seu talento pela representação.

A admiração por artistas e programas de TV fez do nosso menino um telespectador assíduo. E nasceram as primeiras histórias, ainda na máquina de escrever. Aventuras, romances, contos, suspense... Seus escritos são muitos e variados. As férias chuvosas em Piranga eram uma inspiração ao seu talento como autor.

Veio então o Curso de Teatro e as primeiras peças. Em 1998 estreia em “O Grande Ator”, onde fazia o papel de um diretor atrapalhado. A experiência foi bastante positiva, e logo em 1999 veio a segunda peça, dirigida por Ilvio Amaral: “Eterna Luta entre o Homem e a Mulher”. Dessa vez o desafio era interpretar vários personagens, entre eles um caipira e um machão. Também em 1999 participou da peça “Quem é Ele”. No ano seguinte, o sucesso foi por conta do mordomo James, da peça “Se essa Sogra fosse minha” e o menino Tunico, de “Deu bicho na Bruxa”, personagens inesquecíveis para o ator, que foi dirigido por Marx Barroso.

A paixão pelas letras e pela Arte o levou à faculdade: primeiro Letras, mais tarde substituída pelo Jornalismo, onde encontraria afinidade pela redação e busca de noticias. O ano era 2001, e junto ao Jornalismo veio a autoria de sua primeira peça teatral ainda inédita, “Meu mundo”, e os artigos jornalísticos, como o “Casa dos Artistas", publicado no Jornal de Casa.

Os anos seguintes foram dedicados aos estágios na área de Jornalismo. Alexandre continuava produzindo seus textos e enveredava pelo caminho do Vídeo. Em 2003, apresentou o vídeo “Lições do Tempo”, produzido pelo Sistema Salesiano de Vídeo e em 2006 gravou o vídeo institucional VIDES.

Em 2004, em meio às publicações como a matéria para o site Sebrae, veio o retorno ao Teatro com a peça “Parente não é gente”, como o travesso Curió. No ano seguinte essa mesma peça é apresentada na Campanha de Popularização de Teatro de Belo Horizonte, assim como “A Convenção das Bruxas”, onde interpretou o Morcego Baluke. Era mais uma parceira com Barroso.

A produção escrita do nosso autor foi contínua. Artigos, contos, poemas e, em 2006, as primeiras ideias do seu primeiro livro infanto-juvenil, “Caminhar contra o Vento”, publicado em 2008 na Editora Virtual Libri. Neste ano também, Alexandre reuniu seus escritos em um site pessoal. Era a primeira versão do site www.alexandrelanalins.com.br. Seus textos foram publicados ainda em sites como BrasilWiki! e Recanto das Letras, onde são amplamente comentados pelos leitores e têm grande audiência.

A grande experiência na web, lendo e visitando sites e blogs diversos, inspirou-lhe a ideia do programa “Blog da Vez”, veiculado pela Elo FM, rádio comunitária na qual presta serviço voluntário. O programa aborda e divulga blogs interessantes e curiosos, que valem a pena visitar. Iniciado no ano de 2009, o programa já está próximo da marca dos 100 blogs. Também em 2009 iniciou a história do livro “Sexo, Morte e Boi-bumbá” o qual pretende lançar na web no próximo ano.

“E o sonho não acabou”, diria o grande poeta. O menino-sonhador, o jornalista-ator, o poeta-escritor tem planos de continuar a escrever e voltar a atuar. O encanto das suas palavras é um convite ao mergulho nos seus textos. Conheça e navegue pelo mundo de alexandrelanalins.com.br e construa também os seus sonhos!

Pequenas reflexões...

Com a aproximação do Natal, começam as propagandas, os apelos comerciais e a ânsia de gastar todo o dinheiro “natalino” em presentes e em diversos consumos. Mas, também, com a aproximação das festas de fim-de-ano, inicia-se em cada um a esperança de dias melhores. A partir dessa reflexão, uma angústia pode surgir nos pensamentos de cada pessoa.

A vida se resume ao trabalho, a ganhar dinheiro, a gastar dinheiro, acumular dinheiro? Ok, são perguntas até “manjadas” diante a tantos textos que falam sobre o assunto, mas questionar o excesso do apego a materialidade nunca será demais e nem piegas. E claro, julgar erroneamente o materialismo não é o correto, pois precisamos tê-los para viver aqui na terra. Agora, quando pensamos em fazer o bem, tem que se aprender a se doar... Não é fácil, pois se fosse o mundo seria um mar de rosas. Mas é muito mais simples do que se imagina e Chico Xavier já dizia que podemos fazer o bem, mesmo ficando em silêncio.

Acho, que em um determinado momento, encontrarei diversas respostas que me tiram o sono e prolongam a minha ansiedade, crendo que faz parte do crescimento do homem as descobertas, as decepções e as conquistas ao longo da vida. Se encaramos com naturalidade as conquistas e as decepções da vida, talvez viveremos em um mar de rosas. E com merecimento!

O mendigo rico

Mais um domingo em Piranga e os jovens reunidos na Praça do Coreto, após o término da missa. Um grupo reuniu-se no coreto da cidade e eles colocaram a conversa em dia: estudos, namoros, família, preocupações... Apesar de que naquela época, viver era menos corrido e o futuro estava bem mais desenhado que nos dias atuais.

De longe, eles viram o famoso mendigo da cidade chegando. Conhecido como Sr.Sabedoria. O apelido pegou e ficou. O Sr. Sabedoria gostava de contar causos para a garotada, mas toda a história desse mendigo era verdadeira. Contava que já viajou muito e contava detalhes de cada país de onde passou. Estados Unidos, França...Isso era motivo de muita zombaria por parte da garotada, apesar que tinha aqueles que ouviam atentamente a história desse homem.

Os jovens de Piranga cogitavam que esse mendigo já fora muito rico e tinha uma lenda na própria cidade que ele, realmente, foi milionário e perdeu toda a sua fortuna com mulheres, bebidas e jogos. Antes de ficar pobre, ele havia viajado o mundo todo e, por isso, tanta inteligência e tantas histórias. Nas enciclopédias, a confirmação de cada assunto tratado pelo Sr.Sabedoria.

Naquela manhã de domingo, Sr.Sabedoria contou como ele vivenciou o primeiro aniversário da bomba de Hiroshima. Visitou o local para ajudar os que haviam perdido tudo. A cidade era só destruição e ele pode conhecer um padre que ajudava com palavras de conforto e um médico que atendia o hospital lotado por doentes em fase terminal e outros feridos gravemente pela radioatividade da bomba. O mendigo contava com detalhes essa história e os jovens pareciam estar diante de um professor de História.

Naquele dia, um jovem resolveu segui-lo. Afinal de contas, quem era esse Sr. Sabedoria que usava roupas rasgadas, fumava um cigarro de palha, tinha um velho burrinho como companhia?

Seguiu até a velha casa onde o Sr. Sabedoria morava. Ninguém naquela cidade havia entrado naquele recinto. Assim que o Sr.Sabedoria entrou, o jovem aproximou-se da janela de madeira velha e podre devido ao tempo. Ouvia a sua voz. Falava sozinho? Pela fresta da janela, assustou-se com que viu. Naquela velha casa de um cômodo tinha uma imensa biblioteca. Livros espalhados por toda a sala. Havia tantos exemplares, que a simples cama sumia no meio deles.

Sr.Sabedoria estava sentado em uma velha cadeira e lia um livro. O jovem forçou a visão e conseguiu ler... Hiroshima. Esse era o nome do livro. O jovem sorriu e foi embora. Nunca contou o segredo do Sr.Sabedoria para ninguém. Deixe que o povo de Piranga ache que ele é sábio, pois foi rico um dia e pôde ver de perto todos os acontecimentos importantes do mundo. E era verdade. Ele tinha os livros como testemunhas.

De santa à prostituta

Rousilda era a moça mais comportada de Piranga. No início do século 21, usava vestido de chita e seu cabelo era penteado para trás. O famoso rabo de cavalo. Com seus 20 anos de idade, nunca namorou. Feia não era. Mas ela ofuscava a beleza com o seu desleixo no visual. Saia de casa para a faculdade e para as missas à noite. Carola como a mãe.

Branca que nem a vela do altar de Nossa Senhora, nunca teve coragem de ir ao clube e colocar um maiô... Biquíni? Nem pensar? A pobrezinha era virgem de tudo. Só treinava os beijos no copo com gelo e na laranja. Outros prazeres... Nem pensar! Coisa do diabo!

Identificava-se com as beatas de Jorge Amado e com as moças puras das novelas de TV, que no final sempre encontravam um príncipe encantado. Mas a vida não é assim, Rousilda. Um dia se apaixonou. Não era mais um amor platônico. Ela queria que este fosse verdadeiro. Um lindo rapaz que saia toda noite com uma moça diferente e tinha o carro do ano. Bonito, atlético, um “Don Juan”. As moças eram apaixonadas por ele. E Rousilda também... Mas ele nem a olhava. E nem podia. Um playboynão enxergaria a alma daquela pura moça. Parecia que fizera promessa para ficar solteira para o resto da vida.

Rousilda tinha poucas amigas e a única que tinha era igual a ela. Ah! As beatas de Jorge Amado. Um dia, completamente apaixonada, alugou o filme do Jonh Travolta. Sim... Grease. Lá ela viu a sua história. A mulher tímida mudou todo o seu estilo para conquistar o playboy que amava tanto

E decidiu! Mudaria o seu estilo!

Soltou o cabelo, usou roupas modernas, aprendeu a se maquiar e até tirou carteira de motorista. Financiou um carro em 60 vezes só para impressionar a todos. Parou de ir à missa e começou a freqüentar as boates. Até a dança do poste aprendeu. Numa noite dessas, Rou (como gostava de ser chamada agora) viu o seu príncipe playboy e jogou olhares fulminantes pra cima dele. E este sorriu. Não falaram e nem ficaram. Mas o flerte só estava começando.

Uma, duas, três noites... E o playboy sumiu. Vários homens investindo na Rou e esta só queria o seu playboy. E este sumira completamente. Desolada, aceitou o convite de outros homens e perdeu a virgindade com o primeiro que a embriagou. Ai, não parou mais... Virou a dama da cidade. Dama Rou. Levava aos homens à loucura com a “dança do acasalamento”. Um segredo que ela guardava a sete chaves.

Porém, o vazio foi lhe preenchendo a alma e a saudade do playboy invadiu o seu coração. Foi quando, passando em frente a uma igreja, ouviu um culto bonito e se aproximou. Para a sua surpresa, na primeira fileira, estava o seu playboy. Calça de linho, blusa social com o último botão fechado, cabelos arrumados. Cantando e orando. Era um outro homem. Ou melhor, era o seu príncipe encantado. Mas ao lado dele a sua melhor amiga... A outra beata. Estavam noivos e iriam se casar.

Rou enxugou as lágrimas. Saiu da igreja e andou até uma esquina. Colocou um chiclete na boca, rodou a bolsinha e esperava o primeiro cliente aparecer. A Rosa da Noite tinha acabado de nascer... E ai? Que pagar quanto? – perguntava sorridente.

O homem que adorava mentir

Úmero resolveu contar a grande mentira da vida dele. Esta mentira seria a consagração das décadas em que viveu mentindo. Uma grande mentira que mobilizaria Piranga, uma típica cidade do interior, onde viveu toda a sua vida. Úmero sempre mentiu. Aliás, nasceu mentindo. Ao invés de chorar, riu quando o médico lhe deu palmadas no bumbum. Era o sinal. Seria um grande zombador. Achava que a vida seria uma grande festa! No berço, chorava de fome, mas quando a mamadeira era colocada em sua boca, ele ria. E como ria! Era mentira!

Na escola, todo dia contava uma mentira para os seus colegas. Alguns professores o colocavam de castigo e diziam: “Por que não escreve histórias?" Mas não, Úmero queria zombar, rir da vida e contar mentiras. Inventava mil histórias, porém quantas eram prejudiciais.

Adolescente, teve as primeiras namoradas à base da mentira. Não duravam muito os relacionamentos. Claro, as mentiras logo eram desmascaradas. Mas sem mulher ele não ficava. Era um galã. Tocava violão, fazia serenata e mentia. Assim, conquistava as mulheres.

Adulto, não parava em emprego nenhum, pois logo a sua fama de mentiroso se espalhou. Não casou. Que mulher queria casar com um mentiroso? E quando se viu diante do desemprego e da falta de oportunidade, um “amigo” lhe convidou para ser político. Ah! Ai foi o momento de glória! Como mentia bem esse filho de uma égua. Venceu várias eleições, mentindo. Não cumpria nada do que prometia. Era um eloqüente mentiroso no coreto de sua cidade, bracejando as promessas invisíveis.

Até que o povo cansou e ele não conseguiu se eleger mais a nenhum cargo. Mas ficou rico. Enquanto procurava outras ocupações, continuava a mentir. Até que ninguém lhe deu atenção mais. Úmero, então, resolveu contar a grande mentira da vida dele. Esta mentira seria a consagração das décadas em que viveu mentindo. Espalhou para toda cidade que só tinha seis meses de vida. Inventou uma doença e foi tão verdadeiro que todos acreditaram. Podia ter sido um grande ator. Chorava nos bares e nas esquinas da cidade. Os religiosos rezavam pela sua saúde e Úmero passou a ser tratado como rei. O grande cidadão e prefeito que aquela cidade já teve!

Até que um médico da capital chegou à cidade e descobriu toda a mentira. E a notícia logo foi se espalhando. Pronto! A vida de mentiroso de Úmero foi destruída. Foi levado à fogueira, assim como o Judas nos sábados de aleluia. Ninguém lhe falava mais e nem um “bom dia” recebia. Foi definhando, acreditou na sua grande mentira e dizia que faltava pouco para morrer. Até que morreu. No dia 1º. se abril. Morreu com a doença que havia inventado. O povo daquela cidade só soube por um cartaz redigido com uma velha máquina de escrever na porta do bar. Ninguém foi ao enterro. Só ele e o coveiro. Afinal, ninguém acreditou que Úmero tinha realmente morrido. Nem o padre. Era mais uma grande mentira!

Vida e Morte se casam

O povo da cidade de Piranga estava em peso na igreja, quando a Morte entrou com um lindo vestido de noiva. Sorridente, acenava para todos com aquele facão na mão. Seus convidados estavam presentes. A Vida estava no altar esperando a noiva, porém com a cor do vestido diferente. Era um azul mais claro.

O prefeito da cidade e o governador do Estado presentes no casamento. No altar um padre, um pastor, um pai de santo e um mentor espiritual esperavam para o início da cerimônia. Enquanto a Morte percorria a igreja, Manfrildo agoniava-se na cama do hospital. Tinha um câncer terminal. O pulmão mal funcionava e estava respirando graças à ajuda de um aparelho. Manfrildo passou a vida fumando e acreditando no poder e na sedução do cigarro. Quando soube que estava com o câncer, fez um pacto com a Morte. Apresentaria a ela a Vida e se caso as duas se apaixonassem, ele seria salvo dessa doença terrível.

E assim foi feito: Morte e Vida se apaixonaram e resolveram se unirem.

Com as bênçãos de todos os credos, Morte e Vida saíram da igreja debaixo da chuva de arroz e, visivelmente, felizes. Naquele mesmo dia, o cemitério da cidade ficara vazio. Não tinha um morto para contar história. Todos estavam voltando para suas respectivas casas, trajando roupas infectas e rasgadas.

Manfrildo curou-se da doença e voltou a viver a sua vida. Sentiu que teria uma segunda chance. Parou de fumar e mudou seus hábitos. E os anos foram passando e a cidade não tinha mais como comportar tanta gente. Os velhos ficando mais vigorosos e as mulheres tendo dois, três, dez filhos. O prefeito mandara fazer mais casas, porém o dinheiro não era suficiente. E a saúde pública se transformou num caos. Os que voltaram à vida infectaram os rios.

Manfrildo, devido à desorganização da cidade, pegou a famosa dengue. E não só ele... Muitos. E no auge dos seus 130 anos, Manfrildo não sabia onde encontrar forças para viver no leito do hospital, junto com milhares de pacientes que tinham além da dengue, outras doenças que há muitos anos haviam desaparecido da cidade. Manfrildo não agüentava mais, queria morrer... Bastava! Viveu o suficiente... Mas cadê a morte?

A Morte ainda curtia a lua-de-mel com a Vida e ambas só dançavam. Elas dançavam o dia todo, a noite toda... A alegria da Vida multiplicava a população e a felicidade da Morte permanecia as pessoas vivas, mesmo doentes. Até que Manfrildo gritou pela Morte e esta veio ao seu encontro. Queria saber o que tanto queria. E Manfrildo revelou que a Vida estava lhe traindo com uma tal de Esperança. Esperança que estava na cidade para ajudar o caos que atingiu aquele povo. Radical, a Morte não ouviu a explicações da Vida e terminou tudo. E nada de pensão. A Morte não ia pagar nada. Um Dólar!

Depois desse dia, Manfrildo morreu. E a metade da população de Piranga, depois de um terremoto que acabou com a metade da cidade. Esperança sem saber de nada, acreditara que o homem não tinha nada haver com aquelas tragédias naturais. E Vida e Esperança se conheceram, mas Vida está muito ressentida e Esperança tentava lhe conquistar. Mas Esperança aguardava um outro “Manfrildo” para lhe dar uma ajudinha nessa conquista.

O trocador apaixonado

Eita trocador apaixonado! Não é que ele está sempre com um perfume forte e um sorriso na cara? Pego sempre o mesmo ônibus e reparo que sempre são as mesmas mulheres que estão no coletivo. E o trocador também. Barba feita, roupa alinhada e cantor. O rapaz é cantor. Enquanto ajuda as moças com o dinheiro da passagem, ele canta famosas músicas do Zé Ramalho. E ele canta bem. Parece que ali, naquele banco, em frente à roleta, era o seu palco.

Enquanto canta, olha discaradamente para uma bela moça que estava ao meu lado. Ela ficara vermelha... Não sei se era de paixão, vergonha ou raiva. O trocador parecia um namorado apaixonado, cantando para a sua amada embaixo da janela. De vez enquanto, lembra que está trabalhando. Pega uma moeda de cinqüenta centavos e bate nas ferragens do ônibus, anunciando que o motorista podia ultrapassar ou encostar no ponto. E , também, para avisar que tem passageiro querendo descer. Assim, ele percorre a viagem toda... Sorriso no rosto, cantando e cheio de gracejos com as meninas.

Em uma outra viagem, quem eu encontro cobrando os passageiros? O trocador apaixonado! Desta vez, por causa do frio, vestia elegantemente e sorria para todas as moças e mulheres que entravam no coletivo. Eram loiras, morenas, ruivas, negras, amarelas... Todas se encantavam com o sorriso desse trocador. Nas mãos uma luva preta para espantar-se do frio. Quando a moça com quem ele se apaixonou entrou, ele vibrou com os olhos e pôs a cantoralar “Chão de Giz”. Olhou pela janela e viu um senhor lavando a calçada de sua casa com água e murmurou: “Moço, a água ta acabando, sô”.

Hoje, não foi diferente. Era o trocador apaixonado no coletivo. Porém, estava triste. O seu olhar não irradiava alegria e não cantava uma música sequer. Notara que a moça com quem se apaixonou não estava no ônibus. Ô vontade de perguntar o que tinha acontecido... Mas não precisou. O trocador apaixonado silenciosamente tirou do seu bolso uma aliança e a reparou. Olhava-a triste. O motorista vendo o trânsito lento que aguardava-lhe, viu o trocador pelo retrovisor e afirmou: “ Acabou, né...” O trocador afirmou com a cabeça e jogou a aliança pela janela do ônibus. Deu um sorriso e voltou a cantar... Eita trocador apaixonado!

Estive no Sítio do Lobato

Hoje eu estive no Sítio do Pica-pau Amarelo e encontrei Dona Benta escolhendo um livro em sua biblioteca para ler aos seus netos na noite de hoje. Estava feliz, porém, um pouco ansiosa, pois iria ler uma obra de Monteiro Lobato. Um cheiro gostoso de bolinho vinha da cozinha; era a Tia Anastácia fazendo seus quititudes enquanto cantava lindas músicas. Pedi licença a Dona Benta e fui dar uma volta no Sítio. O Burro-Falante me cumprimentou, mas estava com muita pressa, pois Visconde lhe chamara para conversar e trocar idéias a respeito de um experimento novo. Sorri e fui conversar com o Rabicó, que estava comendo, pra variar...

Estávamos numa prosa boa, quando o Jabuti chegou cansado e nervoso, perguntando pela Emília. Queria entregar uma carta do Príncipe do Reino das Águas Claras. E era urgente! Haveria uma festa amanhã lá e as aranhas-costureiras queriam tirar a medida da Emília. Foi lá... devagar e reclamando...

O Saci me deu uma rasteira e saiu rindo; eu levantei e ri também. Afinal, levar rasteira do Saci- Pererê não era pra qualquer um... Ouvi a Cuca rindo alto e percebi que tinha me afastado um pouco do Sítio. Voltei e vi a turminha chegando. Emília, Pedrinho e Narizinho. Abraçam-me e disseram que estavam chegando da Lua, foram trocar uma idéia com o São Jorge e ver, mais uma vez, o nosso planeta Terra... Emília toda elétrica disse que eu estava lá em um ótimo dia, pois iria ter os bolinhos da Tia Anastácia e Dona Benta iria contar uma história do padrinho deles: Monteiro Lobato.

À noite, todos estavam reunidos na sala e Dona Benta sentada em sua cadeira de balanço. A leitura ainda não havia começado, pois o Visconde não tinha chegado. Ele perdera a sua cartola. Pedrinho logo achou. Estava com o Saci e para castigá-lo, deixou-o preso em uma garrafa.

Quando Dona Benta iniciou a leitura, Tia Anastácia chegou com os bolinhos e a porta se abriu. Uma surpresa! Era Monteiro Lobato. Que honra conhecê-lo. Emília quem o convidou e manteve segredo. Com o seu pirlimpim fez surgir um bolo e cantamos parabéns ao mestre Lobato e, claro, a famosa música de Gilberto Gil: “Sítio do Picapau Amarelo, Sítio do Picapau Amarelo...”. Já com um pedaço de bolo na mão, aproximei do Sr. Lobato e o agradeci.

- Obrigado, por ter feito a minha infância ser mais lúdica e feliz e me tornar um adulto sonhador.

Ele sorriu e olhava orgulhosamente para os seus filhos, os seus personagens.

Morena do Sol

Dênisclelto saíra da escola atrasado, era quase meio-dia, mas ficou de castigo por causa de umas travessuras que tinha feito em sala de aula. A professora não teve dor e piedade e deixou-o em sala copiando a frase: “Sou um menino bom” cem vezes. Revoltado, Dênisclelto saiu correndo de sua escola e passou em frente à igreja matriz, olhou ao relógio e viu que era quase meio-dia. O sol já apontava o calor que iria fazer naquela tarde em Piranga.

Uma tranqüila cidade e também rústica. Cresceu andando de bicicleta pelas ruas de bloco no chão e ouvindo histórias maravilhosas dos mais velhos. Daqui um mês iria completar 13 anos e Dênisclelto já estava descobrindo os mistérios da juventude.

Ao entrar em sua rua, avistou o morro que o presenteava com a paisagem. No alto do morro, uma velha árvore. Uma árvore que foi atingida por um raio em uma tempestade e por isso deixou metade dela morta. Portanto, a outra metade tinha flores e na outra a coitadinha era seca. Pareciam os dois caminhos que a vida lhe indicava. Olhando para tal árvore assustou-se com o badalar das doze horas. E viu um vulto lá no morro, perto da árvore.

Parou e fixou o olhar na árvore. E viu... Viu uma linda morena vestido com apenas alguns panos e dançando embaixo da árvore. O sol do meio-dia o fazia enxergar mal a bela morena e por causa da distância, não via o seu rosto. Mas era bela! E sensual! Naquela noite não dormiu, pensava o tempo todo na sua morena. A Morena do Sol.

Todos os dias, Dênisclelto fazia uma travessura em sala de aula para ficar até mais tarde na escola. Copiava com gosto: “Sou um menino bom” e quando terminava saia da escola como um vento e esperava o badalar das doze horas da igreja. Ao meio-dia em ponto, a Morena do Sol aparecia debaixo da árvore no alto do morro.

Assim passou um mês e o rapaz resolveu conhecer a tal morena e descobrir os seus mistérios.

 Destemido, saiu da escola no horário do recreio e pegou um atalho para subir até a árvore no alto do morro. Invadiu terras e pulou cercas, sujou os pés no barro e caiu várias vezes na subida íngreme. Enfim, com suor no rosto e cansado, estava debaixo da árvore e se escondeu atrás de uma moita.
Dormiu. Acordou assustado, com o badalar das doze horas. Dênisclelto espiou por de trás da moita a árvore e esperava pela morena. E ela estava lá. Vestida apenas com um pano, dançava debaixo daquele sol. Seu cabelo preto dançava junto com o vento... O rapaz estava apaixonado com tanta beleza. Parecia ouvir a música que ela dançava. Não agüentou mais, queria pega-la, beijá-la, amá-la...

 Mas acordou. Estava jogado naquele chão de capim. Olhou por entre a moita e não viu a morena. Olhou o relógio... Doze horas e um minuto. Cadê ela? Cansado, levantou-se e resolveu ir embora... Mas debaixo da árvore encontrou o pano que vestia a sua morena, que vestia o seu desejo juvenil.

A morte do Zé Pereira

Enastácio sempre gostou de carnaval. Contava os dias, semanas e meses para o próximo carnaval. Ele era o responsável pelo tradicional Zé Pereira ,ou Boi – Bumbá, que alegrava as noites de janeiro na cidade de Piranga. O Zé Pereira antecipava a festa que seria o carnaval. Os homens vestidos de mulheres, mulheres fantasiadas e crianças correndo atrás do boi. Enastácio além de preparar o Zé Pereira, era o miolo do boi. Dava vida aquele boi de retalho velho.

“ Olha o Zé Pereira, bate com a bunda na poeira” – cantavam todos, enquanto o boi vinha descendo a ladeira e os bonecos gigantes alegravam e assustavam as crianças e os adultos. Enastácio ria dentro do boi. Como gostava de correr atrás da criançada e assustar o povo que ficava no contorno da praça matriz. E aquela noite antecederia a morte do Zé Pereira. Uma noite antes do sábado de carnaval, o povo saia de preto, chorando . O caixão feito de madeira velha e retalhos era jogado no Rio Piranga. Ali decretava-se o fim do Zé Pereira e o início do carnaval. Depois de jogado o caixão, o povo voltava alegre e cantando. Era o início do carnaval.

Antes da última noite do Zé Pereira, Enastácio cantava junto e dançava com as crianças. Como fazia calor dentro daquele boi. Em certo momento, tudo começou a rodar e ele foi perdendo a força. O povo assustou, um menino gritou: O boi caiu!- Foi um corre-corre geral. Tentaram socorrer Enastácio até a chegada de um médico. Infarto! Não tinha mais jeito. A banda silenciou, o povo se entristeceu e uma criança puxava o rabo do boi. “Vamô, boi! Corre atrás da gente!”

No outro dia, Piranga amanheceu com o tempo nublado. E o velório do Enastácio acontecia na humilde sala de sua casa. Parece que está sorrindo, comentava todos que o viam no caixão. Velas acessas, flores e Enastácio imóvel. O seu filho sabia que o último dia do Zé Pereira era o mais importante para o seu pai, portanto a festa não podia acabar naquele velório.

Assim à noite, o povo ouviu uma choradeira descendo a ladeira e a banda apenas tocando um instrumento com um som melancólico. Todos de preto segurando um caixão velho. Era a morte do Zé Pereira. Passaram em frente à casa de Enastácio e fizeram uma parada. Aplaudiram. E um foguete foi aos céus. Enquanto o velório de Enastácio continuava, o velório fictício de Zé Pereira rodava a praça matriz.

Passarinho que come pedra...

O professor Procariontes dos Eucariontes era considerando o mais inteligente da cidade de Piranga. Com um vocabulário de dar inveja aos outros mestres, Procarionte dos Eucariontes era chamado para escrever os discursos dos vereadores e do prefeito da cidade. Na inauguração da nova igreja matriz de Piranga, que lembra as obras de Oscar Niemeyer, Procariontes dos Eucariontes tirou de sua pasta um bloco de folhas com um discurso escrito em uma velha máquina de escrever.

Eloqüente e incisivo, Procariontes dos Eucariontes gritava aos quatro cantos do coreto:

- Piranguenses, burgo de minha urbe e de meu cerne. Eis que estou aqui como um humilde servo para apresentá-los a nova igreja matriz da nossa apetecida cidade. Uma igreja que explana o que temos de mais coevo no século xx e com os arrabaldes de um mestre da arquitetura hodierna. Hoje é um passo significativo para a modernização de nossa urbe e para o futuro promissor desta comarca povoada de guarás-pirangas. Estou muito probo em ser o pregador desse momento de transformação, no qual o povo piranguense terá uma obra de arte plantada juntos aos coqueiros da Praça. Sem dúvida, com esta obra briosa, não sobrará pedra sobre pedra, da antiga igreja que nada mais acrescentava à nossa magnânima cidade.

( Será?)

E ele continuava:

- Eis que o prefeito incidiu em sua administração ao delinear uma igreja redonda, que nada mais é, do que o futurismo dos anos setenta que contempla os intelectuais e o povo arrastado que vontade de chorar. Somos a sabatina viva de que Piranga está há um passo da civilização futurística e que, agora, o asfalto é questão de período e sobriedade dos gestores dos poderes Executivo, legislativo e Judiciário. Eu, como professor e pregador, sou prova acalorada e contundente de que a cidade está evoluindo para o crescimento sustentável. Como diz a velha canção, quem sabe faz à hora, não espera a acontecer. Muito obrigado!

Aplaudido pelos intelectuais, Procariontes dos Eucariontes desceu as escadas do coreto e num susto tropeçou com as próprias pernas e bateu a cabeça no chão. Foi levado as pressas ao hospital para cuidar de um corte que tinha na testa e de um “galo” que aparecera em sua cabeça.

Foi para a casa e Procariontes dos Eucariontes adormeceu. Dois dias dormindo. Quando a sua esposa resolveu acordá-lo, ele espreguiçou-se e sorriu. Levantou-se da cama e foi tomar café. Ainda calado, a sua esposa perguntou a ele:

- O que foi, Procarionte? Está tão calado?

- Uai, to com uma fome danada de besta. Num vejo a hora de devorar este pão com café pra dispois dar aula. Meus aluno istão mi esperando na iscola. Oiá, faz logo a lista de compra qui vou passar na frente do mercadinho pra mode de pedir a comilança.

A esposa do Procarionte levou um susto, o homem não dizia uma palavra certa. Era outro homem. A sua sabedoria tinha ido embora quando bateu a cabeça no chão. E, naquela semana, tinha outra inauguração na cidade. E o prefeito já havia combinado com ele.

Pois bem, no dia da inauguração, Procarionte dos Eucariontes estava no palanque com o discurso escrito na mão. Dessa vez foi à esposa que escrevera, pois sabia das condições do marido. O prefeito, então, iniciou:

- Piranguenses, estou inaugurando o novo hospital público para a nossa comunidade. Não deu para fazer muitas coisas, pois o dinheiro estava curto porque os governos estadual e federal estão em crise. Mas é o primeiro passo e o professor Procarionte dos Eucariontes está aqui para mostrar que mesmo faltando recursos, a prefeitura de Piranga está preocupada com o bem-estar do povo.

Procarionte pegou o microfone e começou:

- É, povão, lascados nós estamô, lascados ficaremo. Com farta de dinheiro na conta da prefeitura, cada um sabe onde o sapato aperta. Por isso que digo que cada macaco fique no seu gaio, para não dar gaio para o povo. Um hospital sem C.T.I é comer o pão que o diabo amassou. Afinal, passarinho que come pedra sabe o C* que tem.

Nunca o professor Procarionte dos Eucariontes foi tão aplaudido pelos populares.

A primeira transa de um jovem

Irieldo completara 15 anos. Logo de manhã, ganhou de sua mãe um par de sapatos e uma blusa nova. Como era domingo, a mãe queria ver o seu filho bonito na missa das 19 horas. E seria a celebração que antecederia o natal. Daqui alguns dias, comemorariam a vinda de 1960.

O pai de Irieldo lhe viu experimentado a roupa. Como seu filho crescera. Nem parecia ter 15 anos. Entrou no quarto e com um olhar observador, percebeu uma revista de mulheres nuas debaixo do travesseiro do rapaz. Este sorriu, seu menino já era um homem!

Como presente aos 15 anos do garoto, Irieldo recebeu uma quantia em dinheiro do pai. E passou todas as informações possíveis. Era uma casa que ficava na entrada da cidade e ele podia escolher a mulher que quisesse. Indicou uma morena. Irieldo constrangido recebeu o dinheiro do pai e guardou. Deitado em sua cama, pensava na bela Juliana. Linda morena de 18 anos, um corpo monumental, porém tinha cara de menina. Usava sempre um vestido de chita e laços na cabeça. Declarou-se a ela e esta o desdenhou.

Na última noite de lua cheia fez até serenata. O pai da Juliana se rebelou e jogou o pinico cheio de xixi no pobre menino. Juliana só ria.Juliana queria um rapaz da capital.

Todo arrumado com a roupa nova, Irieldo disse à mãe que iria a igreja. Não foi. Pegou um atalho e foi em direção a casa mais movimentada daquela redondeza. Apreensivo, foi recebido por uma mulher mais velha que o incentivou a entrar. Sentou-se em uma mesa velha e não pediu nada para beber. Estava nervoso. A pouca luz e o cheiro forte de cigarro o incomodava. Em sua mente, Irieldo só pensava na bela Juliana. Como a queria como namorada. Como queria beijá-la, amar... Mas tinha que tirá-la da cabeça. Olhou para uma morena sentada no velho balcão e a chamou.

Foram para o quarto imundo. Uma barata passeava no chão e um velho colchão era o que tinha naquele quarto. A mulher com um sorriso no rosto tirou a roupa e deitou. Irieldo fez o mesmo. Afoito, tentava acertar a melhor maneira de fazer amor com aquela mulher. Esta, com calma, o ensinava. Mas, na cabeça de Irieldo, quem estava ali era a Juliana. Agora sim, sentia o grande prazer da vida dele. Não parecia a sua primeira vez, via na mulher a sua linda menina.

O dinheiro foi gasto naquela noite e Irieldo saiu satisfeito. Era um homem. Tinha transado. A mulher exausta na cama, só com um sorriso nos lábios. Ele prometeu voltar. E ela ansiosa esperava pela volta daquele garoto.

Passaram os dias e nunca mais Irieldo voltou aquela casa. E a mulher sentia saudades e desejos pelo menino. Até que em uma bela noite, ela foi acordada com uma serenata. Era Irieldo cantando belos versos. Jogou uma rosa para a mulher e esta sorriu. O chamou para entrar. Naquela noite seria de graça. Irieldo, então, aceitou. Mas, por uma condição, que ela vestisse de chita e colocasse laço nos cabelos. Queria ter nos seus braços a bela Juliana.

Piranga e as bicicletas voadoras: aventura sem fim

Era o ano de 1989, ano que a democracia brasileira voltava com fé e esperança. Ano que os brasileiros votariam no presidente do Brasil, depois de anos de ditadura. Como era importante aquele ano. Mas a importância para mim era outra. E, talvez, até mais doce. Era o ano da infância, das amizades e foi o ano que morei em Piranga.

Naquele ano, eu estudei na Escola Coronel José Ildefonso e lá encontrei meus grandes amigos de infância e início de juventude. E foi nessa escola que conheci professores que me entusiasmaram nesta vida de escritor e jornalista. Lembro-me de Dona Ilza, professora de Português, que ensinava-nos os verbos e pediam-nos que os conjugassem em pé,na frente dos colegas. Parecia um palco de teatro, no qual dizíamos os verbos com tamanha perfeição, que parecíamos artistas. Foi a professora Ilza que me incentivou a escrever um diário e o transformei em inspiração para escrever minhas histórias. E a matemática? Nunca foi tão fácil entendê-la com a professora Elza. Lembro-me, também, das professoras Sãozinha, Rita e Tia Lalada ( que dava aula de Ed.física).

Depois das aulas, os amigos se reuniam na praça matriz com suas bicicletas ferozes. As aulas terminavam as 4 e meia da tarde e as seis da tarde já estávamos com nossas “motos”. Era um grupo de meninos que “voavam” pela cidade. Sentindo o cheiro de mato, sentindo o vento no rosto, vendo o sol se pôr. Piranga sentia os tremores das bicicletas e os nossos sorrisos. Analdo, Waguinho, Gildim, Lucimar, Antônio Mendes, Willian... Amigos de escola, de rua e de aventura. Descobríamos, também, como era gostoso gostar de alguém. As meninas sorridentes e alegres enchiam os nossos olhares: Geovana, Aline, Daniele,Rosana, Fernanda... Os amores platônicos que se transformaram em amizades.

Mas eram as bicicletas “ferozes” que nos faziam mergulhar no mundo de aventura que Piranga nos proporcionava. A praça matriz, a Praça do Rosário com sua linda igreja, a Rua Nova, o Rio Piranga, o cemitério, Rua do Rosário, a Rua Quebec... Invadíamos cada canto da cidade com as bicicletas voadoras e com as buzinas de plástico... É, aquela que dava aquele som: “fim-fom”.

Parávamos na praça da igreja matriz e comprávamos chicletes e chocolates. Colecionávamos as figurinhas e trocávamos as repetidas. As bolinhas de gude no chão da praça e a bola de futebol no campo do clube.
A noite, completamente exauridos, voltávamos para casa orgulhosos. Afinal, o dia foi longo e aproveitamos cada canto de Piranga e cada momento de nossas infâncias. Aos amigos e professores que não citei o nome, digo-lhes que estão na minha memória e no meu coração. Lembro-os de cada um... Como se fosse ontem e não quase vinte anos.

O ano de 1989 sempre será aquele ano que nunca terá igual. Um ano especial. Que se fosse um filme ganharia vários prêmios, que se fosse um livro viraria um Best-Seller. Que se fosse para voltar, que voltasse como foi. Sem tirar e nem por. Obrigado, Piranga! Obrigado, meus amigos! Obrigado meus pais por ter me proporcionado um ano lúdico e surreal.

Pelas barbas dos profetas!

Merecildo encontrou a sua cara metade! Uma linda mulher. E além de linda, simpática, culta e muito inteligente. E com uma elegância ímpar! No primeiro encontro, Merecildo ajeitou a sua bela barba e se perfumou. Foi ao encontro da bela moça. Primeiros olhares, primeiras conversas e o primeiro beijo. Depois desse, outros muitos vieram. A linda moça passava a mão na barba curtinha de Merecildo e dizia como era linda. O rapaz ficava todo inchado. A namorada nunca mais o chamou pelo nome, só de “babuzudinho”. E com aquela voz linda e doce.

Os meses foram passando, o namoro seguia forte. E a barba também. Toda vez que ficava grande, a namorada fazia questão de cortar. Para ela era um ritual. Primeiro passava a máquina para deixá-la baixinha e depois a tesoura para tirar os fios grandes. E, finalmente, a gilete para tirar os fios encravados. Pronto! Merecildo estava novinho em folha. Á noite faziam amor e a namorada só faltava arranhar o seu rosto na barba do Merecildo.

Um ano de namoro e a namorada colocou várias fotos do Merecildo na internet. Todos com ângulos diferentes da barba. Nem o nariz do próprio rapaz apareceu. Só a barba! Parecia uma mata fechada com os ângulos fechados. Até concurso para melhor barba feita, a namorada colocou Merecildo para concorrer. Ganhou...

Mas Merecildo começou a ficar enciumado da própria barba. Um dia disse que iria tirar para mudar o visual, mas a namorada chorou. Fez uma verdadeira cena de novela mexicana. Ele não podia fazer isso com ela, tirar a barba que ama tanto. Ama tanto? Afinal, ele ama o Merecildo ou a barba dele?

Em uma noite de chuva forte de raios e trovões, Merecildo sem dor e piedade cometeu um “barbocídio”. Seu rosto ficou mais liso que bumbum de bebê. Ele ria alto em frente ao espelho com a máquina ligada em sua mão. E os raios iluminavam cada fio que saia de seu rosto. Bom, o namoro terminou. Ela disse que sem a barba, Merecildo não era o mesmo.

Revoltado, Merecildo nunca mais deixou a barba crescer e não queria saber de namoro. Só curtir as noites. Alguns meses se passaram e Merecildo estava em uma boate. Música alta, poucas luzes e muita gente dançando. No meio da pista, um homem com uma barba bem feita e muito perfumado passou a mão no bumbum do Merecildo. Este levou um susto e disse a ele que era hetero e tal... O rapaz coçou a barba, sorriu e perguntou com aquela linda voz suave e doce:

- Não está me reconhecendo, meu babuzudinho?

O santo homem bêbado

Girilson acordou no banco da praça principal de Piranga com uma baita dor de cabeça e o rosto ardendo devido ao sol das dez horas. Sentia umas fincadas no fígado. Mais uma vez bebera a noite toda no bar da esquina e não voltou para a casa. Quantas e quantas vezes, ele fez isso. Para decepção de sua família e sua linda namorada.

Sentou-se no banco e reparou que várias pessoas o olhavam e faziam comentários maldosos. Hum... Na hora da alegria eram todos amigos e naquele momento era motivo de chacota. Girilson se levantou e viu tudo rodar, ouviu o sino da Igreja matriz e foi seguindo o seu som. Viu a porta aberta e entrou cambaleando... A dor de cabeça aumentara.

Ao ajoelhar e rezar um Pai-Nosso viu tudo escurecer e quando acordou estava ao lado do Padre. Como ele dizia coisas bonitas e que o motivavam. Girilson foi abençoado naquela hora. Sentiu em seu coração que queria ter uma missão a realizar nesta vida: queria ser santo e ajudar a todos com palavras bonitas e com ações de benevolência.

Assim, Girilson passou vários meses levando palavras de conforto para os doentes e idosos em asilos de Piranga. Ele foi conquistando a cidade. Quando uma pessoa se adoentava, ele era chamado e com suas preces o indivíduo era curado. Não demorou para Girilson ser considerado o santo de Piranga e seu nome atravessar a Zona da Mata e atingir a capital mineira. Logo, chegava ônibus de todos os cantos de Minas para conhecer o milagreiro.

Girilson atendia a todos e novos milagres ele fazia. Logo os presentes iam aparecendo e entre eles, cachaças legítimas de cada região. Recebia com gratidão, mas não sentia necessidade de beber um gole. A sua namorada estava orgulhosa dele e em uma manhã de sábado, vestiu um vestido branco e foi encontrá-lo na beira do rio Piranga para ouvir as suas palavras. Ela sorria. Tinha um namorado santo. Ouvindo as suas palavras, ela escorregou em uma pedra e foi parar dentro do rio. Não sabia nadar a coitadinha... Quando um homem ameaçou de pular e salvar a moça, Girilson não deixou. Disse que as suas palavras de coragem iam salvá-la. E pedia que ela mantivesse a calma e viesse nadando. Nesse momento, todos acolheram o pedido de Girilson...

Mas a moça afundou no rio e foi levada. Morreu a pobrezinha. Talvez, não tinha conseguido proferir nem a primeira palavra de fé. A população de Piranga se revoltou e de santo, Girilson virou assassino. Só não foi expulso da cidade, porque meia dúzia de fiéis ainda o consideravam santo.

Em uma manhã de domingo, foi encontrado bêbado no banco da praça. No chão dezenas de garrafas que havia ganhado, enquanto era santo. Acordou... Sentiu uma tremenda dor de cabeça, ouviu o sino da igreja e os gritos de sua falecida namorada. Olhou para o chão e pegou outra garrafa novinha. Abriu e voltou a beber. Ao seu lado, apenas um cachorro e todos em volta o criticando...

O misterioso senhor da praça

A jovem Mila estava atrasada para a faculdade, mas não se esqueceu de pegar a sacola com o lanche. Biscoitos, maça, banana, suco... Era isso que ela levava hoje para um velho senhor que morava na praça do seu bairro. Sr.Feliz, como era conhecido. Sempre andava alinhado, apesar dos ternos velhos. Sapato furado, porém sempre brilhando. Barba bem feita e um sorriso de dar inveja a todos que passavam por ali.

Mila o conheceu há algum tempo e logo se encantou. Assim, todo dia levava o lanche para ele antes de ir à faculdade. E tinha tempo de ouvir suas histórias. Se fossem reais, que experiência de vida ele tem. Se fossem mentiras, que imaginação... Uma das histórias que mais fascina Mila e quando ele participou da Segunda guerra mundial. Como foi um homem valente. Defendeu com coragem a todos e a tudo.

Assim que Mila sentou ao lado do Sr.Feliz, ele se emocionou. Achava comovente a ajuda daquela menina. Como aquele café da manhã o fortalecia. Ela viu uma foto antiga no seu velho caixote e perguntou onde era... Ele respondeu como estivesse voltando ao tempo... Era Piranga, sua cidade. Onde deixou a mãe que não a viu morrer. Onde deixou os amigos que partiram sem se despedir. Onde deixou a sua família... Mila sorriu. Ela conhecia a cidade.

Mila também observou uma criança no colo do Sr. Feliz. Era o seu filho. Quando Sr.Feliz voltou da guerra, a sua família tinha ido embora de Piranga. A sua esposa, que era doente morreu, e seu único filho foi dado para uma família criar. Sr.Feliz soube para onde ele foi, mas não foi atrás. A morte de sua mulher o tinha abalado muito. Logo adoeceu e não pôde continuar os seus negócios na cidade. Foi transferido para a capital e ficou internado há anos em uma clínica.

Sr.Feliz comeu o último pedaço de maçã e Mila se despediu. Era hora de ir à faculdade. Estava super atrasada. Agora ela entendia porque aquele senhor tão simpático estava sozinho no mundo e nas ruas. Foi considerado louco, mas estava deprimido. Amou muito a sua esposa. Uma linda portuguesa. Conheceram-se no coreto da praça da matriz de Piranga. Enquanto a procissão de São Sebastião rodava a praça, eles deixaram que suas mãos se tocassem. A partir dali, nunca mais largaram um ao outro. Até a guerra...

Passaram semanas e Sr.Feliz havia sumido da praça. Mila não soube do seu paradeiro. Procurou saber na redondeza se alguém sabia daquele senhor, mas as notícias eram muitas. Até que ela soube que ele havia falecido. Ficou doente. Não suportou a solidão, a ausência de sua esposa e de seu filho, apesar de mostrar um sorriso cativante. O remorso de não ter o procurado falava muito mais alto.

Mila correu até o banco da praça onde Sr.Feliz dormia e chorou. Pela primeira vez sentiu a morte. Como era cruel. Observou algo debaixo do banco e pegou. Era a foto. Ela sorriu, era tudo o que precisava naquele momento,. Ligou para o seu pai e pediu que a buscasse.

Imediatamente, o pai chegou. Estava nervoso e falava alto ao celular. Mila entrou no carro e enxugou as lágrimas. Finalmente, tinha a foto nas mãos. Enquanto o pai falava ansiosamente no celular, Mila colocou a foto em sua direção.
Silêncio.
Ele desligou o celular. Pegou a foto. Uma lágrima saiu de seus olhos.
Murmurou...
- Pai...

O mistério do primeiro amor

Foi o primeiro beijo. Sentiu algo estranho no corpo, o coração bateu forte e sua respiração ficou ofegante. Estava apaixonado. Deixou-a em frente do colégio e Sineudo correu até a sua casa com um sorriso no rosto. Entrou como um furacão em sua casa e nem beijou a mãe pedindo a sua benção.

E no seu quarto, tirou o uniforme e colocou a sua roupa predileta. Lembrou que tinha uma faixa, da época que fazia judô, e resolveu procurá-lo entre os seus guardados. Assim que achou, ele correu até a sua mãe, que colocara o almoço na mesa, e pediu a ela que colocasse a faixa nele.

A mãe riu. Brincar agora de esconde-esconde? Claro que não, queria ter aquela faixa em seus olhos. Assim, a mãe fez o que o seu filho, de apenas 15 anos pediu. Sineudo comeu aquele dia com a faixa nos olhos, sem ver nada. Palpava os talheres, o prato, pedia que a mãe o ajudasse com a comida. E foi assim naquela tarde.
Sineudo foi à padaria com a faixa nos olhos, atraindo a curiosidade de muitos. Comprou pão e leite e voltou para a casa com muita dificuldade. Andou pela casa apalpando todos os objetos, ouviu música em seu quarto e tendo a escuridão como companheira. Telefonou para os amigos, recebeu-os em casa e até jogaram um jogo de tabuleiro. E Sineudo não tirou a faixa.

Na hora do banho,ele também não tirou a faixa. Sineudo colocou uma roupa apenas apalpando-a e “despejou” o melhor perfume que ele tinha. Soube pelos moldes do vidro. Ele perguntou a mãe as horas e ele foi para a porta de sua casa. A sua namorada estava chegando...

Assim que ela chegou, Sineudo apalpou o rosto dela com carinho. Ela riu. Deram um beijo.

Ela passou a mão no rosto dele e descobriu a faixa.
- O que é isso? – ela perguntou.
Ele respondeu.
- Meu amor, hoje eu estive no seu mundo...

Meu reencontro com Dona Lola

A minha primeira leitura marcante foi Éramos Seis de Maria José Dupré. Tinha doze anos e descobria o mundo da leitura e da escrita. Vivi as alegrias e tristezas de Dona Lola e seus quatro filhos. Mas, tinha apenas doze anos de idade. Quatro ano depois, achei o livro novamente no meu armário e resolvi lê-lo novamente. Os personagens mudaram, pois a minha visão crítica tinha mudado. Percebi qualidades e defeitos em Dona Lola, que eu não havia enxergado antes.Borges (2000) descreve em seu texto Livro de Areia , a partir de um personagem, que “ o número de páginas deste livro é exatamente infinito”. Isto nos faz refletir que quando lemos o livro pela segunda vez, temos outra interpretação. Vemos outros aspectos que antes não percebíamos. É como se toda vez que pegássemos o livro para ler, tivéssemos outra história nas mãos.

Mendes ( Intertextualidade: Noções Básicas) diz que a “identificação da intertextualidade depende da extensão da leitura que se tenha.” Isto me faz refletir que quando eu li aos 19 anos, Capitães da Areia do autor Jorge Amado, e o Cortiço de Aloísio de Azevedo, comparei os personagens dos respectivos livros com a família de Dona Lola. Enfim, o meu primeiro livro que li, Éramos Seis, me deu embasamento para mergulhar no universo de Jorge Amado e Aloisio de Azevedo e comprender os diferentes mundos literários. “Quanto mais lermos, mais nos será possível percebermos a presença de uns textos em outros e maior será a nossa comprensão.”

A intertextualidade nos leva a comprensdeer o mesmo texto de várias maneiras. Podemos transformar o texto de Dupré em teatro e, fazer do romance de Dona Lola, uma leitura diferente. Com imagens, cores humanizadas em atores em um ambiente lúdico do teatro. Ou, mesmo, fazer uma peça inspirada nos textos de Jorge Amado, Azevedo e Dupré, transformando-os em um único ato.

O teatro é uma forma de interação com o mundo literário e engana-se o indivíduo que acha a literatura um ato solitário. Para Soares (Condições Sociais da Leitura), “A leitura não é um ato solitário, é interação verbal entre indivíduo”. A partir do momento em que estamos lendo uma obra literária, nossa vida social é importante para influenciar toda a leitura. Todo o discurso produzido por um leitor é importante para o seu desenvolvimento crítico. Deve-se ignorar os erros ortográficos, quando o indivíduo coloca no papel as suas experiências e idéias em relação a vida e ao mundo.

A coroa de flor e a morte

Já eram quase meia –noite, de uma sexta-feira 13, e ouvia-se ainda quatro amigos conversando alto no famoso bar do Inhá-Inhá, na esquina da praça, em frente à igreja matriz. O frio do inverno fazia-se todos esquentarem com uma boa pinga e conversas altas. O disco velho e arranhado tocava Nelson Gonçalves e Petrônio via as neblinas descendo a serra. Logo cobriria Piranga, cidade pacata.

Petrônio bebia cada copinho de pinga, como se fosse à bebida mais cara e valiosa desse planeta. E não era por menos, ela vinha de uma fazenda a poucos quilômetros de Piranga. Uma pinga e tanto. As conversas iam de política, religião e futebol. As discussões acaloradas exaltavam todos ao mesmo tempo em que os faziam rir.

Até que uma coruja entrou no bar assustando todos. Todos riram depois. Diziam que era a morte chegando... Mais gargalhadas. Até que Petrônio olhando o cemitério do alto do morro teve uma idéia estapafúrdia. Quem fosse agora, quase meia-noite, ao cemitério pegar uma coroa de flores de um defunto qualquer ganharia um mês de pinga.

O silêncio foi geral. Só os grilos faziam a festa na silenciosa noite de Piranga. Petrônio riu. Deu diversas gargalhadas e tomou mais uma pinga e então desafiou a todos. Se ele fosse buscar a coroa, ele teria um mês de pinga grátis naquele bar.

Todos aceitaram na hora e duvidaram da tal coragem do Petrônio. Logo ele que quase morreu por causa do coração e estava com tantas pontes no coração. Achando que a morte o levaria chorava e rezava para Deus ter piedade dele. Salvou-se.

Petrônio bateu o copo no balcão do bar e tonto foi em direção ao cemitério. Assim, ele desapareceu no meio da neblina. Os amigos o olhavam e começaram a rir. Tudo era motivo para risadas.
Passaram-se duas horas e nada do Petrônio. Os amigos cansados disseram que ele pregou uma peça a todos e, na verdade, ele tinha ido para casa dormir. Revoltados foram embora cantarolando Nelson Gonçalves... Como as senhoras xingavam esses boêmios pelas janelas.

Quando o dia amanheceu, o frio estava presente em Piranga e a notícia logo se espalhou. Os três amigos foram para a porta do cemitério confirmar com os próprios olhos o que o povo tanto gritava. Petrônio estava com a camisa agarrada no velho portão do cemitério e com a coroa de flores na mão. Estava morto, com os olhos arregalados e com as mãos agarradas a coroa. Um dos amigos limpou as lágrimas e disse: “ Vamos beber a morte do nosso amigo com a nossa velha amiga pinga”. E desta vez, não riram.

Comédia MTV nos remete a saudosa TV Pirata

Uma das atrações da MTV, que está merecendo um bom destaque na programação, é o programa Comédia MTV com o comando do humorista Marcelo Adnet, revelação da emissora no ano passado. O programa tem quadros que satirizam a televisão que nos lembram a saudosa TV Pirata dos anos 80, exibido na Rede Globo.

Apesar de ser uma produção modesta, o roteiro é inteligente e a atuação da trupe não deixa cair à qualidade do humorístico. Apesar de usarem muito palavrão, como se estivessem conversando com amigos em um bar, o Comédia MTV tem grandes momentos prazerosos. Uma delas é a sátira do Programa A casa é sua, da Sônia Abrão. No humorístico, Dani Calabresa imita a apresentadora e comanda o programa A Desgraça é sua. E não para por ai, o Comédia MTV abre espaço para brincar com a própria programação da emissora.
Fica ai a dica, um humor alternativo e sem papas da língua, toda quarta-feira às 22:30h na MTV.

Saudade das minhas tecnologias

Não, não sou saudosista. Mas tenho saudades das minhas tecnologias. Ainda criança, no longínquo e tão perto anos 80, ganhei um gravador da marca National ( alguém lembra?) e várias fitas velhas do meu tio e do meu pai. Como essas fitas eram boas, gravava diversas vezes e elas estavam ali presentes e duráveis. Desmanchava uma música ( não, eu não deletava) e gravava outra música. Ou às vezes gravava a minha voz de criança brincando. Ainda tenho algumas gravadas. E, quando deixava a fita preparada no som... Era uma guerra. Rec e play acionados e pause, quando o locutor acabava de falar destravava o botão e pronto. Opa! Não contava com a vinheta da rádio no meio da gravação. Tudo bem...

Lembro do meu primeiro disco que ganhei. O LP do Sítio do Pica-pau Amarelo. Aquele cheiro de vinil novo, a capa novinha... Era gostoso ver o disco rodando na radiola e a agulha indo ao fim do disco, depois de tocar dez ou 12 músicas. Arranhava se não tomasse cuidado e, também, se tomasse muito cuidado. Sempre quando comprava um disco, tentava adivinhar onde estavam as melhores músicas. No Lado A ou no Lado B?

Depois chegou o Video- Cassete e as fitas cassetes. Tenho uma coleção delas. Sempre tive mania de gravar bons programas de TV. Pois é, a minha primeira fita tem 22 anos e ainda roda no aparelho. O som e a imagem estão com a qualidade inferior, mas já passei para o DVD.

Ah! Essas mídias novas como são práticas e, ao mesmo tempo, nos enchem de dor de cabeça. Outro dia gravei um programa no meu aparelho de DVD e perdi. A mídia não quis ler mais. Não deu nem tempo de finalizar... Perdi. Por outro lado, o Sítio que gravei para minha sobrinha é visto no meu computador, no mini DVD dela e em diversos aparelhos. Posso colocar no minuto ou no segundo da cena que minha sobrinha mais gosta de ver, no toque de um botão.

Mas as facilidades dessas novas mídias todos já conhecem, o bom é relembrar que com um lápis eu rodava uma fita para colocar no ponto que eu desejava para gravar. Ou rodava a fita inteira, só para ouvir a última música gravada ou ver se tinha espaço sobrando para gravar mais uma música. Ou quando eu ia gravar um disco, tinha que soltar o PAUSE quando a agulha da radiola tocasse a primeira faixa do LP. Ai, era torcer para que a agulha não pulasse e a gravação saísse perfeita.

Mas como tenho saudades de uma mídia aparentemente ou certamente muito inferior? Sinto saudades do romantismo de gravar uma fita para a namorada, só com músicas do meu gosto. Sinto falta das lindas composições e das grandes canções que saiam de um vinil. Da coleção visual que dava prazer de fazer. E como era caro comprar um disco...

Enfim, saudades que não amenizam ou apagam as virtudes das novas mídias. Mas saudades que nos fazem lembrar que o tempo passa e que as lembranças ficam eternamente marcadas nas canções de um disco ou de uma fita. Mesmo arranhadas ou emboladas, eu ainda escuto algum refrão daquela música que marcou a minha infância.

O fotógrafo e a modelo: amor entre olhares

Estava desempregado há seis meses, sua esposa o compreendia, mas estava apreensiva com o pouco dinheiro que tinham. Apaixonados, comemoravam o quinto ano de uma união feliz. Venilson era um fotógrafo respeitado no meio jornalístico. Sempre cobriu grandes reportagens... A queda de Fernando Collor em 1992, o tetracampeonato da Seleção Brasileira. Viu de perto as torres gêmeas dos Estados Unidos caírem no chão. Sim, Venilson estava lá, no momento do ataque. Quantos prêmios ele recebera pelas fotos reveladoras e fortes. Mas, agora, estava desempregado.

Em uma tarde, deitado no sofá, já desiludido, recebeu um telefonema. Uma oportunidade de free-lancer. Três meses de contrato. Mas, um agravante: não era para testemunhar momentos históricos e sim acompanhar o dia a dia de uma modelo famosa. A doce Jucélia. Saiu da pobreza com a beleza da alma e o corpo escultural. Venilson relutou, mas a grana era boa. Conversou com a esposa, ela o convenceu. Seriam três meses de alívio.

Venilson começou o chato trabalho de acompanhar a modelo. Tudo era motivo de um clique! Estava no shopping, o flash iluminava o ambiente. Estava na praia, outro clique. Nas passarelas, outra foto. Jucélia era fotografada o dia todo para alimentar as revistas de fofoca... Até uma foto nua da modelo, Venilson registrou. Sentiu tesão, mas o profissionalismo e o amor à esposa falou mais alto.

Um mês se passara Venilson e Jucélia já não eram mais estranhos. Mas nunca trocaram uma palavra, nunca conversaram. Ela apenas via uma máquina fotográfica testemunhando os seus passos e ele via a modelo como um trabalho rotineiro e chato. Mas, com o passar dos dias, o olhar dele já não ficava na câmera mais... Nas fotos sensuais, Venilson via o seu olhar se desviando e fixando no olhar da bela modelo. Ela, também, não via a máquina mais... Via olhar dele, a desejando. Quando chegava em casa, Venilson via a sua esposa te aguardando com um sorriso no rosto e um aconchego. Ele correspondia, mas o seu pensamento estava na modelo.

Um dia, Venilson chegou mais cedo na casa de Jucélia e ela já estava pronta para mais uma rotina de fotos. Em silêncio, os dois permaneceram na sala, enquanto esperavam pelo motorista da modelo. Os olhares se entrelaçavam, um sorriso tímido aparecia no rosto de Jucélia... E Venilson correspondia. Silêncio. E esse silêncio gerou uma crise de riso na modelo. E Venilson também deixou a risada tomar conta do seu corpo. Ela, então, sentou ao seu lado. Venilson ficou apreensivo. Jucélia pegou na mão do fotógrafo e levou até o seu rosto. Venilson deixou... Ela, então, começou a chorar. Naquele dia estava fazendo um ano que perdera o seu grande amor. Um lindo amor que inicou-se na adolescência. Venilson a abraçou e ela correspondeu. Os lábios se aproximaram, mas não houve o beijo. Jucélia não entregaria o seu coração a ninguém e muito menos o seu corpo.

Jucélia se afastou, tirou da bolsa um cheque e fez o último pagamento ao fotógrafo. Não queria mais os serviços dele. Sabia que se continuasse com Venilson, ela trairia o seu grande e eterno amor. Venilson guardou o cheque e sorriu. Usaria aquele dinheiro para comprar um lindo presente para a sua esposa. Era aniversário de casamento...

Sexo com a morte

Era o ano de 1950, um velho e conhecido fazendeiro de Piranga acabara de ficar viúvo. A dor que sentia de ver o seu grande amor ir embora, o deixava deprimido, sem vontade de andar pela sua fazenda e conduzir o comando de sua vida. Conhecido por todos pela sua bondade e riqueza, distribuía a todos os pobres carinho e conforto. Não foi a toa que o funeral de sua esposa ficou cheio. Parece que a cidade estava ali em peso. Desde os pobres até os políticos e os mais influentes da cidade.

Viveu com a sua esposa durante 25 anos. Não tinha notícia em Piranga que ele o traia e nem mesmo ela... Hum... E nem podia! Ela esteve doente por muitos anos e foram anos que o velho fazendeiro dedicava a sua amada. Sempre com carinho e dedicação. Era um amor muito lindo, no qual ele sentiria um canalha se traísse a confiança dela. Até em pensamento.

Não que ele não tinha desejos, mas ele soube controlar. Entregou-se no trabalho e nos problemas diários e se satisfazia vendo o seu patrimônio crescer.

Maldita hora que ele contratou uma morena linda que completara 18 anos. Cabelos cacheados, corpo definido, olhos de jabuticaba e um sorriso perfeito. Usava um vestido de chita e dançava com Boi-Bumbá as musiquinhas de roda. A saia rodava e os homens ficavam encantados com a sua beleza...Aquele fazendeiro que acabara de completar 55 anos, tinha o seu charme... Mas a vaidade sumiu com a sua vida, o seu amor incondicional à sua esposa e ao trabalho.

Quando chegou o tempo de colher o feijão, o velho fazendeiro entrou em sua ampla sala e sentou na cadeira de balanço. Seis meses se passaram... A morena entrou na sala e com um sorriso travesso perguntou se queria almoçar. Era assim todo dia. Olhares... Nos últimos meses um desejo louco por ela. Mas e a sua esposa? O amor que nutria por ela? Poderia amar outra? Mas logo essa moreninha, que tem idade para ser sua filha? Num domingo, o dia sagrado para aquele povo, o senhor fazendeiro (que agora se cuidava), esperou a moreninha entrar na sala e o chamar para o almoço.

Longe ouvia o povo cantando com o Boi-Bumbá que estava se aproximando da fazenda. O fazendeiro e a moreninha aos beijos, logo estavam na cama. Lá fora, o povo chamando a todos para verem a passagem do boi. Na fazenda, o fazendeiro beijava a moreninha e esta correspondia à sua paixão. O boi lá fora e um homem tomado pelo desejo na cama com a morena. Ele olha a porta de seu quarto e vê sua esposa. Chorando... Com uma rosa na mão. Sentiu um calafrio. Fez um gemido... E morreu. Morreu ao lado da morena que o chamava desesperadamente.

Foi encontrado morto na cama, de pijama. Coitado... Morreu dormindo.

No velório, todos conversavam e os pobres choravam. Perderam um grande padrinho. Os filhos chegaram da capital e não entendiam a morte súbita do pai. Quando o padre fez a última oração, a moreninha entrou na sala com uma rosa na mão. Colocou sobre as mãos do morto fazendeiro e beijou a sua testa.

Tampou-se o caixão e a morena saiu correndo pela fazenda chorando... Chorou até ver o Boi-Bumbá pelas estradas de terra... O seu vestido rodava, ela sorria e os homens a desejavam...

Perfil

Sou mineiro e fazendo jus a minha minerice, gosto de contar causos e palpitar um pouco nos artigos da vida.
Convido a todos para lerem meus causos e minhas opiniões. Se discordarem, estejam à vontade para expor a sua opinião. Se concordarem, um elogio sempre é bom para o brio da gente.
Obrigado pela sua visita!
Alexandre Lana Lins
Jornalista e escritor
Belo Horizonte, 08 de junho de 2008.

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A LIRA DOS 30 ANOS
Amigo eu vou contar pra ocês
A minha vida nus primeiros 30 anos de vida...
Oia que já fiz muita coisa
Para apresentar pra ocês...
Amigo,
Já fui bebê, criança e adolescente,
Cantava e conversa com as plantas,
Era um Visconde que tremia os dente
Quando uma planta me contava suas aventuras.
Sempre inventava uma história,
Meus irmãos entravam nela,
Viajávamos no túnel do tempo e sorria,
Por mode de sabermos o início de nossa história.
Tinha meus amores platônicos,
Que nas minhas mãos não chegavam,
Mas meu coração tinha um danado de um tônico,
Pra amar uma outras meninas que em mim chegavam.
Eu e meus irmãos fazíamos o povo rir,
Com um teatrinho trapalhão,
Que nossos familiares tinham que assistir,
E achar bonitinho o Naldinho com o seu naringão.
Depois fui fazer jornalzinho,
Pretensão muitas de se tornar a voz do bairro,
Com o jornal quente nas mãos vendíamos no friozinho,
Das tardes de sábado a bordo de um carro.
Já fui ator, cantor e apresentador,
Fui menino, vovô, mordomo e morcego,
Nos palcos da minha vida era tentador,
Ser várias vidas e ser ovacionado, que fazia bem para o meu ego.
Hoje sou jornalista, sim senhor,
Na batalha de ser ético,
Rezei várias vezes para o nosso senhor,
Para não me arranjar um trabalho que não me sinta patético.
Já tive morenas, loiras, ruivas e negras,
Com nenhuma deles pensei em me casar,
Deus do Céu me livra do casamento e suas regras,
Mas sei que um dia uma delas vai me pescar.
Tenho trinta anos,
Posso viver mais trinta,
E morrer aos sessenta,
Mas três mais engano a morte e passo dos noventa!
Esse são os meus primeiros trinta anos,
Com ajuda de Jesus Cristo, nosso senhor
Só peço pra me salvar nos quarenta anos,
Quando o médico vier com o seu indicador.
Eita, vidão sô!