segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A coroa de flor e a morte

Já eram quase meia –noite, de uma sexta-feira 13, e ouvia-se ainda quatro amigos conversando alto no famoso bar do Inhá-Inhá, na esquina da praça, em frente à igreja matriz. O frio do inverno fazia-se todos esquentarem com uma boa pinga e conversas altas. O disco velho e arranhado tocava Nelson Gonçalves e Petrônio via as neblinas descendo a serra. Logo cobriria Piranga, cidade pacata.

Petrônio bebia cada copinho de pinga, como se fosse à bebida mais cara e valiosa desse planeta. E não era por menos, ela vinha de uma fazenda a poucos quilômetros de Piranga. Uma pinga e tanto. As conversas iam de política, religião e futebol. As discussões acaloradas exaltavam todos ao mesmo tempo em que os faziam rir.

Até que uma coruja entrou no bar assustando todos. Todos riram depois. Diziam que era a morte chegando... Mais gargalhadas. Até que Petrônio olhando o cemitério do alto do morro teve uma idéia estapafúrdia. Quem fosse agora, quase meia-noite, ao cemitério pegar uma coroa de flores de um defunto qualquer ganharia um mês de pinga.

O silêncio foi geral. Só os grilos faziam a festa na silenciosa noite de Piranga. Petrônio riu. Deu diversas gargalhadas e tomou mais uma pinga e então desafiou a todos. Se ele fosse buscar a coroa, ele teria um mês de pinga grátis naquele bar.

Todos aceitaram na hora e duvidaram da tal coragem do Petrônio. Logo ele que quase morreu por causa do coração e estava com tantas pontes no coração. Achando que a morte o levaria chorava e rezava para Deus ter piedade dele. Salvou-se.

Petrônio bateu o copo no balcão do bar e tonto foi em direção ao cemitério. Assim, ele desapareceu no meio da neblina. Os amigos o olhavam e começaram a rir. Tudo era motivo para risadas.
Passaram-se duas horas e nada do Petrônio. Os amigos cansados disseram que ele pregou uma peça a todos e, na verdade, ele tinha ido para casa dormir. Revoltados foram embora cantarolando Nelson Gonçalves... Como as senhoras xingavam esses boêmios pelas janelas.

Quando o dia amanheceu, o frio estava presente em Piranga e a notícia logo se espalhou. Os três amigos foram para a porta do cemitério confirmar com os próprios olhos o que o povo tanto gritava. Petrônio estava com a camisa agarrada no velho portão do cemitério e com a coroa de flores na mão. Estava morto, com os olhos arregalados e com as mãos agarradas a coroa. Um dos amigos limpou as lágrimas e disse: “ Vamos beber a morte do nosso amigo com a nossa velha amiga pinga”. E desta vez, não riram.

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