segunda-feira, 15 de novembro de 2010

De santa à prostituta

Rousilda era a moça mais comportada de Piranga. No início do século 21, usava vestido de chita e seu cabelo era penteado para trás. O famoso rabo de cavalo. Com seus 20 anos de idade, nunca namorou. Feia não era. Mas ela ofuscava a beleza com o seu desleixo no visual. Saia de casa para a faculdade e para as missas à noite. Carola como a mãe.

Branca que nem a vela do altar de Nossa Senhora, nunca teve coragem de ir ao clube e colocar um maiô... Biquíni? Nem pensar? A pobrezinha era virgem de tudo. Só treinava os beijos no copo com gelo e na laranja. Outros prazeres... Nem pensar! Coisa do diabo!

Identificava-se com as beatas de Jorge Amado e com as moças puras das novelas de TV, que no final sempre encontravam um príncipe encantado. Mas a vida não é assim, Rousilda. Um dia se apaixonou. Não era mais um amor platônico. Ela queria que este fosse verdadeiro. Um lindo rapaz que saia toda noite com uma moça diferente e tinha o carro do ano. Bonito, atlético, um “Don Juan”. As moças eram apaixonadas por ele. E Rousilda também... Mas ele nem a olhava. E nem podia. Um playboynão enxergaria a alma daquela pura moça. Parecia que fizera promessa para ficar solteira para o resto da vida.

Rousilda tinha poucas amigas e a única que tinha era igual a ela. Ah! As beatas de Jorge Amado. Um dia, completamente apaixonada, alugou o filme do Jonh Travolta. Sim... Grease. Lá ela viu a sua história. A mulher tímida mudou todo o seu estilo para conquistar o playboy que amava tanto

E decidiu! Mudaria o seu estilo!

Soltou o cabelo, usou roupas modernas, aprendeu a se maquiar e até tirou carteira de motorista. Financiou um carro em 60 vezes só para impressionar a todos. Parou de ir à missa e começou a freqüentar as boates. Até a dança do poste aprendeu. Numa noite dessas, Rou (como gostava de ser chamada agora) viu o seu príncipe playboy e jogou olhares fulminantes pra cima dele. E este sorriu. Não falaram e nem ficaram. Mas o flerte só estava começando.

Uma, duas, três noites... E o playboy sumiu. Vários homens investindo na Rou e esta só queria o seu playboy. E este sumira completamente. Desolada, aceitou o convite de outros homens e perdeu a virgindade com o primeiro que a embriagou. Ai, não parou mais... Virou a dama da cidade. Dama Rou. Levava aos homens à loucura com a “dança do acasalamento”. Um segredo que ela guardava a sete chaves.

Porém, o vazio foi lhe preenchendo a alma e a saudade do playboy invadiu o seu coração. Foi quando, passando em frente a uma igreja, ouviu um culto bonito e se aproximou. Para a sua surpresa, na primeira fileira, estava o seu playboy. Calça de linho, blusa social com o último botão fechado, cabelos arrumados. Cantando e orando. Era um outro homem. Ou melhor, era o seu príncipe encantado. Mas ao lado dele a sua melhor amiga... A outra beata. Estavam noivos e iriam se casar.

Rou enxugou as lágrimas. Saiu da igreja e andou até uma esquina. Colocou um chiclete na boca, rodou a bolsinha e esperava o primeiro cliente aparecer. A Rosa da Noite tinha acabado de nascer... E ai? Que pagar quanto? – perguntava sorridente.

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