segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O homem que adorava mentir

Úmero resolveu contar a grande mentira da vida dele. Esta mentira seria a consagração das décadas em que viveu mentindo. Uma grande mentira que mobilizaria Piranga, uma típica cidade do interior, onde viveu toda a sua vida. Úmero sempre mentiu. Aliás, nasceu mentindo. Ao invés de chorar, riu quando o médico lhe deu palmadas no bumbum. Era o sinal. Seria um grande zombador. Achava que a vida seria uma grande festa! No berço, chorava de fome, mas quando a mamadeira era colocada em sua boca, ele ria. E como ria! Era mentira!

Na escola, todo dia contava uma mentira para os seus colegas. Alguns professores o colocavam de castigo e diziam: “Por que não escreve histórias?" Mas não, Úmero queria zombar, rir da vida e contar mentiras. Inventava mil histórias, porém quantas eram prejudiciais.

Adolescente, teve as primeiras namoradas à base da mentira. Não duravam muito os relacionamentos. Claro, as mentiras logo eram desmascaradas. Mas sem mulher ele não ficava. Era um galã. Tocava violão, fazia serenata e mentia. Assim, conquistava as mulheres.

Adulto, não parava em emprego nenhum, pois logo a sua fama de mentiroso se espalhou. Não casou. Que mulher queria casar com um mentiroso? E quando se viu diante do desemprego e da falta de oportunidade, um “amigo” lhe convidou para ser político. Ah! Ai foi o momento de glória! Como mentia bem esse filho de uma égua. Venceu várias eleições, mentindo. Não cumpria nada do que prometia. Era um eloqüente mentiroso no coreto de sua cidade, bracejando as promessas invisíveis.

Até que o povo cansou e ele não conseguiu se eleger mais a nenhum cargo. Mas ficou rico. Enquanto procurava outras ocupações, continuava a mentir. Até que ninguém lhe deu atenção mais. Úmero, então, resolveu contar a grande mentira da vida dele. Esta mentira seria a consagração das décadas em que viveu mentindo. Espalhou para toda cidade que só tinha seis meses de vida. Inventou uma doença e foi tão verdadeiro que todos acreditaram. Podia ter sido um grande ator. Chorava nos bares e nas esquinas da cidade. Os religiosos rezavam pela sua saúde e Úmero passou a ser tratado como rei. O grande cidadão e prefeito que aquela cidade já teve!

Até que um médico da capital chegou à cidade e descobriu toda a mentira. E a notícia logo foi se espalhando. Pronto! A vida de mentiroso de Úmero foi destruída. Foi levado à fogueira, assim como o Judas nos sábados de aleluia. Ninguém lhe falava mais e nem um “bom dia” recebia. Foi definhando, acreditou na sua grande mentira e dizia que faltava pouco para morrer. Até que morreu. No dia 1º. se abril. Morreu com a doença que havia inventado. O povo daquela cidade só soube por um cartaz redigido com uma velha máquina de escrever na porta do bar. Ninguém foi ao enterro. Só ele e o coveiro. Afinal, ninguém acreditou que Úmero tinha realmente morrido. Nem o padre. Era mais uma grande mentira!

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