segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O santo homem bêbado

Girilson acordou no banco da praça principal de Piranga com uma baita dor de cabeça e o rosto ardendo devido ao sol das dez horas. Sentia umas fincadas no fígado. Mais uma vez bebera a noite toda no bar da esquina e não voltou para a casa. Quantas e quantas vezes, ele fez isso. Para decepção de sua família e sua linda namorada.

Sentou-se no banco e reparou que várias pessoas o olhavam e faziam comentários maldosos. Hum... Na hora da alegria eram todos amigos e naquele momento era motivo de chacota. Girilson se levantou e viu tudo rodar, ouviu o sino da Igreja matriz e foi seguindo o seu som. Viu a porta aberta e entrou cambaleando... A dor de cabeça aumentara.

Ao ajoelhar e rezar um Pai-Nosso viu tudo escurecer e quando acordou estava ao lado do Padre. Como ele dizia coisas bonitas e que o motivavam. Girilson foi abençoado naquela hora. Sentiu em seu coração que queria ter uma missão a realizar nesta vida: queria ser santo e ajudar a todos com palavras bonitas e com ações de benevolência.

Assim, Girilson passou vários meses levando palavras de conforto para os doentes e idosos em asilos de Piranga. Ele foi conquistando a cidade. Quando uma pessoa se adoentava, ele era chamado e com suas preces o indivíduo era curado. Não demorou para Girilson ser considerado o santo de Piranga e seu nome atravessar a Zona da Mata e atingir a capital mineira. Logo, chegava ônibus de todos os cantos de Minas para conhecer o milagreiro.

Girilson atendia a todos e novos milagres ele fazia. Logo os presentes iam aparecendo e entre eles, cachaças legítimas de cada região. Recebia com gratidão, mas não sentia necessidade de beber um gole. A sua namorada estava orgulhosa dele e em uma manhã de sábado, vestiu um vestido branco e foi encontrá-lo na beira do rio Piranga para ouvir as suas palavras. Ela sorria. Tinha um namorado santo. Ouvindo as suas palavras, ela escorregou em uma pedra e foi parar dentro do rio. Não sabia nadar a coitadinha... Quando um homem ameaçou de pular e salvar a moça, Girilson não deixou. Disse que as suas palavras de coragem iam salvá-la. E pedia que ela mantivesse a calma e viesse nadando. Nesse momento, todos acolheram o pedido de Girilson...

Mas a moça afundou no rio e foi levada. Morreu a pobrezinha. Talvez, não tinha conseguido proferir nem a primeira palavra de fé. A população de Piranga se revoltou e de santo, Girilson virou assassino. Só não foi expulso da cidade, porque meia dúzia de fiéis ainda o consideravam santo.

Em uma manhã de domingo, foi encontrado bêbado no banco da praça. No chão dezenas de garrafas que havia ganhado, enquanto era santo. Acordou... Sentiu uma tremenda dor de cabeça, ouviu o sino da igreja e os gritos de sua falecida namorada. Olhou para o chão e pegou outra garrafa novinha. Abriu e voltou a beber. Ao seu lado, apenas um cachorro e todos em volta o criticando...

Um comentário:

  1. Lindo conto Alexandre.Você me fez lembrar o seu avô Zizinho Peixoto, casado com a tia Nininha.O seu avô escrevia fácil,como você. Parabéns! Murilo Carneiro

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