segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O trocador apaixonado

Eita trocador apaixonado! Não é que ele está sempre com um perfume forte e um sorriso na cara? Pego sempre o mesmo ônibus e reparo que sempre são as mesmas mulheres que estão no coletivo. E o trocador também. Barba feita, roupa alinhada e cantor. O rapaz é cantor. Enquanto ajuda as moças com o dinheiro da passagem, ele canta famosas músicas do Zé Ramalho. E ele canta bem. Parece que ali, naquele banco, em frente à roleta, era o seu palco.

Enquanto canta, olha discaradamente para uma bela moça que estava ao meu lado. Ela ficara vermelha... Não sei se era de paixão, vergonha ou raiva. O trocador parecia um namorado apaixonado, cantando para a sua amada embaixo da janela. De vez enquanto, lembra que está trabalhando. Pega uma moeda de cinqüenta centavos e bate nas ferragens do ônibus, anunciando que o motorista podia ultrapassar ou encostar no ponto. E , também, para avisar que tem passageiro querendo descer. Assim, ele percorre a viagem toda... Sorriso no rosto, cantando e cheio de gracejos com as meninas.

Em uma outra viagem, quem eu encontro cobrando os passageiros? O trocador apaixonado! Desta vez, por causa do frio, vestia elegantemente e sorria para todas as moças e mulheres que entravam no coletivo. Eram loiras, morenas, ruivas, negras, amarelas... Todas se encantavam com o sorriso desse trocador. Nas mãos uma luva preta para espantar-se do frio. Quando a moça com quem ele se apaixonou entrou, ele vibrou com os olhos e pôs a cantoralar “Chão de Giz”. Olhou pela janela e viu um senhor lavando a calçada de sua casa com água e murmurou: “Moço, a água ta acabando, sô”.

Hoje, não foi diferente. Era o trocador apaixonado no coletivo. Porém, estava triste. O seu olhar não irradiava alegria e não cantava uma música sequer. Notara que a moça com quem se apaixonou não estava no ônibus. Ô vontade de perguntar o que tinha acontecido... Mas não precisou. O trocador apaixonado silenciosamente tirou do seu bolso uma aliança e a reparou. Olhava-a triste. O motorista vendo o trânsito lento que aguardava-lhe, viu o trocador pelo retrovisor e afirmou: “ Acabou, né...” O trocador afirmou com a cabeça e jogou a aliança pela janela do ônibus. Deu um sorriso e voltou a cantar... Eita trocador apaixonado!

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