segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Vida e Morte se casam

O povo da cidade de Piranga estava em peso na igreja, quando a Morte entrou com um lindo vestido de noiva. Sorridente, acenava para todos com aquele facão na mão. Seus convidados estavam presentes. A Vida estava no altar esperando a noiva, porém com a cor do vestido diferente. Era um azul mais claro.

O prefeito da cidade e o governador do Estado presentes no casamento. No altar um padre, um pastor, um pai de santo e um mentor espiritual esperavam para o início da cerimônia. Enquanto a Morte percorria a igreja, Manfrildo agoniava-se na cama do hospital. Tinha um câncer terminal. O pulmão mal funcionava e estava respirando graças à ajuda de um aparelho. Manfrildo passou a vida fumando e acreditando no poder e na sedução do cigarro. Quando soube que estava com o câncer, fez um pacto com a Morte. Apresentaria a ela a Vida e se caso as duas se apaixonassem, ele seria salvo dessa doença terrível.

E assim foi feito: Morte e Vida se apaixonaram e resolveram se unirem.

Com as bênçãos de todos os credos, Morte e Vida saíram da igreja debaixo da chuva de arroz e, visivelmente, felizes. Naquele mesmo dia, o cemitério da cidade ficara vazio. Não tinha um morto para contar história. Todos estavam voltando para suas respectivas casas, trajando roupas infectas e rasgadas.

Manfrildo curou-se da doença e voltou a viver a sua vida. Sentiu que teria uma segunda chance. Parou de fumar e mudou seus hábitos. E os anos foram passando e a cidade não tinha mais como comportar tanta gente. Os velhos ficando mais vigorosos e as mulheres tendo dois, três, dez filhos. O prefeito mandara fazer mais casas, porém o dinheiro não era suficiente. E a saúde pública se transformou num caos. Os que voltaram à vida infectaram os rios.

Manfrildo, devido à desorganização da cidade, pegou a famosa dengue. E não só ele... Muitos. E no auge dos seus 130 anos, Manfrildo não sabia onde encontrar forças para viver no leito do hospital, junto com milhares de pacientes que tinham além da dengue, outras doenças que há muitos anos haviam desaparecido da cidade. Manfrildo não agüentava mais, queria morrer... Bastava! Viveu o suficiente... Mas cadê a morte?

A Morte ainda curtia a lua-de-mel com a Vida e ambas só dançavam. Elas dançavam o dia todo, a noite toda... A alegria da Vida multiplicava a população e a felicidade da Morte permanecia as pessoas vivas, mesmo doentes. Até que Manfrildo gritou pela Morte e esta veio ao seu encontro. Queria saber o que tanto queria. E Manfrildo revelou que a Vida estava lhe traindo com uma tal de Esperança. Esperança que estava na cidade para ajudar o caos que atingiu aquele povo. Radical, a Morte não ouviu a explicações da Vida e terminou tudo. E nada de pensão. A Morte não ia pagar nada. Um Dólar!

Depois desse dia, Manfrildo morreu. E a metade da população de Piranga, depois de um terremoto que acabou com a metade da cidade. Esperança sem saber de nada, acreditara que o homem não tinha nada haver com aquelas tragédias naturais. E Vida e Esperança se conheceram, mas Vida está muito ressentida e Esperança tentava lhe conquistar. Mas Esperança aguardava um outro “Manfrildo” para lhe dar uma ajudinha nessa conquista.

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