quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Caminhar contra o vento

Para você, meu querido leitor, os dois primeiros capítulos do meu livro infanto-juvenil "Caminhar contra o vento". Espero que goste!

Caminhar contra o vento

André tentou adiar a sua ida ao banco, mas não conseguiu. Assim que o relógio bateu 10 horas, lá estava ele saindo de sua casa, na Rua Jornalista Alexandre Lana Lins, para ir ao banco, que ficava a quinze minutos dali. Distraído, percebeu que já estava na fila, aliás, uma enorme fila e havia se esquecido de levar um livro ou uma revista para ler durante a espera. Mas passou o tempo observando as pessoas... Boys, idosos, donas de casa, executivos, jovens... Jovens? Que linda morena é aquela que está a “três pessoas” na sua frente? Poxa, linda mesmo. André não conseguia tirar os olhos dela e ela começou a perceber. Viu que a moreninha tinha nas mãos um carnê e parecia que era da faculdade. Devia ter uns 19 anos e era, realmente, linda. Os minutos foram passando e a moreninha chegando ao caixa. O que seria ruim, pois logo, logo ela iria embora e, ao mesmo tempo, muito bom, pois estava chegando a vez de André e ele sairia daquele martírio. “Estranho...”, percebeu André, “este banco não tem a porta giratória...”
- Mãos ao alto! Isto é um assalto! Ou melhor, todos no chão, senão levam bala.
Era um assalto e todos estavam apavorados, no chão. Tudo passava muito rápido e a sensação era de que nada daquilo estava acontecendo. Os cincos assaltantes renderam os guardas e os caixas e pegaram todo o dinheiro, isto em poucos minutos. André ficou debaixo de um assaltante e notou que a calça do sujeito estava furada. Desviou o olhar e percebeu que ao seu lado estava à moreninha, rezando baixinho. O rapaz não pensou duas vezes e pegou na mão da moça. Ela aceitou. Também, fazer charminho àquela hora...
Quando os assaltantes foram embora, os clientes do banco estavam desnorteados. Passavam mal e agradeciam por estarem vivos. André ajudou a moreninha a se levantar.
- Tudo bem?
- Sim...
Um silêncio. André se apresentou.
- André, prazer!
- Regina...
André sorriu e perguntou à moça se o acompanharia numa lanchonete ali perto. Ela aceitou. Tomando refrigerante e recuperando-se do susto, Regina reparou que André estava com as mãos trêmulas.
- Como está difícil com essa violência...
- Pois é. Não temos mais paz. Você está melhor?
- Sim e você?
- Um pouco assustado, disse André.
Regina sorriu e André também. Que maneira mais estranha de convidar alguém para tomar um refrigerante.
- Que curso você faz? – perguntou o jovem
- Meu Deus! Tenho que pagar a faculdade! – Regina se lembrou.
- Eu também...
- Faço Letras, e você?
- Jornalismo... - disse o jovem.
- Quero fazer! Vou terminar Letras e partir pro jornalismo... Gosta?
- Sim.
- Que sim devagar...
- Tem seus altos e baixos, mas é um curso muito bom.
- Letras também... Mas o meu sonho é seguir o jornalismo!
- Vamos ser colegas...
- Você mora aqui perto?
- Rua Jornalista Alexandre Lana Lins, e você?
- Na rua acima... Minha vó mora na sua rua. Uma rua bonita, né? Só tem casa, bem arborizada...
- Eu gosto muito, Regina. Nasci lá... É onde moro há 25 anos.
- Parece que você tem mais. Daria uns 28 pra você...
- Legal... – André sorriu amarelo e Regina percebeu a gafe.
-Desculpe, mas é verdade. Não fique triste, você está bem... - e riu novamente.
André notou o sorriso lindo da Regina. Cabelos pretos compridos, ondulados, uma boca carnuda, altura mediana, olhos pretos como jabuticaba e um corpo lindo.
- Bom, tenho que ir. Vou pagar essa conta depois, hoje eu não entro mais naquele banco.
- É... Vou pagar a minha depois também. Quer anotar o meu celular, ou seu namorado vai se importar?
- Não, ele não se importa não...
Que balde de água fria. Ela tem namorado.
- E você, tem namorada?
- Paqueras...
“André, que ridículo, mentindo...”, pensou ao dar a resposta.
- Bom, anota aí...
André pegou o celular e anotou o número. Sem que ela percebesse, colocou na sua agenda “Rê, a morena”.
***
Na Rua Jornalista Alexandre Lana Lins tem uma casa com um enorme pé de romã. Fica depois da famosa sorveteria, onde é o encontro das famílias e dos jovens daquela região. O pé de romã cobre a janela do quarto de Augusto, amigo do André e apaixonado pela sua namorada virtual: a Anjinha. Lá estava ele, conversando com ela pelo Messenger. Teclavam há mais de um mês.
- Ei, que dia vc vai me mostrar a sua foto?
- Vc disse que aparência física não interessa.
- Disse, mas a curiosidade é maior. Vc está vendo a minha foto.
- Pq vc quis mostrar.
- Tá certa... E que dia nós vamos nos encontrar?
- Hj vc tá me cobrando, hein mocinho?
- Estou doido pra te conhecer...
André joga uma semente de romã pela janela do quarto do Augusto e acerta o seu rosto.
- Augusto!
- Tá doido, André... qua...quase que acerrrrta o meu computa....dor. - Augusto é gago.
André aparece na janela entre as folhas do pé de romã.
- Que tá arrumando?
- To con-conversando com a Anjinha...
- Rapaz, estava no banco agora...
- Vou só me despe-pepedir da Anjinha...
- O banco foi assaltado.
Augusto levou um susto.
- Ma-machucou-se?
- Não... Mas conheci uma linda moreninha que machucou o meu coração.
Augusto fez uma careta e colocou a mão na testa... DÃN!!!
- Vou nessa. Você vai à sorveteria mais tarde?
- De-devo. Aqui... pensou na nossa ban-banda?
- É isso que quero acertar com você e com o resto do pessoal.
***
Victor estava ouvindo Jota Quest no seu quarto, com um fone de ouvido, um microfone dublando a música e tirando alguns sons do seu violão. “Quero um amor só meu...” Em um momento, parou a dublagem, abriu a gaveta de sua escrivaninha e viu a foto de uma mulher. Ao lado dela, o seu amigo Humberto, o galã da turma. Como era engraçado ver a turma chamando o Humberto de “Thiago Lacerda” da rua, mauricinho do bairro e outros adjetivos. Mas Humberto era um grande amigo, com pais separados e um carinho enorme destinado à sua mãe, Tereza. Victor se sentou na cama, pegou a foto e observou os dois. Suspirou fundo e beijou a foto. Completaria 19 anos no próximo mês e faria uma super festa, mas a turma queria a presença só dos amigos. Nada de pais. Mas o Victor queria...
Queria a presença de Tereza. Fazia questão de dançar com ela e vê-la a todo o momento. A diferença de 20 anos não assustava o rapaz: o que Victor realmente queria era beijar os lábios de Tereza. O som alto do seu quarto não deixou que ele ouvisse Humberto entrando.
- Que isso, Victor?
Victor se assustou e, rapidamente, jogou a foto embaixo da cama.
- Beijando foto?
Humberto se agachou para procurar a foto.
- Agora eu quero ver quem você estava beijando. – Ele riu. – A turma vai adorar esta história.
- Humberto... pô, você não vai invadir minha privacidade.
Humberto morria de rir.
- Você vai me desculpar, amigo, mas essa eu vou ter que saber...

CAPÍTULO 02
Humberto passeou com a mão sob a cama e pegou algo estranho e vivo. Tirou a mão rapidamente e viu uma barata na sua palma. Sacudiu a mão e, com uma cara de nojo, foi ao banheiro lavá-la. Victor tirou a foto de debaixo da cama, e guardou-a na sua escrivaninha. Depois foi atrás do amigo furioso.
- Humberto, por essa eu não esperava... Você ia invadir a minha privacidade!
- Colé! Somos amigos há mais de dez anos... Que nojo! Você não limpa esse quarto não?
- Não enche... O que você quer? Entra no meu quarto sem bater...
Humberto ri.
- Você tá fresco hein? Vim te chamar pra irmos à sorveteria hoje à noite. O André vai falar da banda que quer montar.
Victor se entusiasma.
- A minha música vai estourar...
- A letra pode ser sua, mas a melodia é minha!
Os dois riram. Era um projeto muito legal. Uma banda com músicas do estilo pop rock. André no vocal, Humberto na guitarra, Augusto na bateria e... E no teclado?
- Pensamos na Joana...
- Joana?
- O que tem? Ela é tímida sim, tem aqueles aparelhos, usa uma roupa do tempo do “Menudo”, é toda atrapalhada, mas... Mas sabe tocar teclado muito bem.
Victor coçou a cabeça.
- E o Augusto sabe disso?
- Por quê? Ele ainda tá brigado com ela?
- Os dois não se falam pra nada, vivem brigando um com outro...
Humberto riu. Isso acabaria em casamento. Ele olhou pra escrivaninha e ameaçou abrir uma das gavetas. Victor pulou na frente e barrou o amigo.
- Victor, eu ainda vou descobrir quem é essa moça da foto... Pô, beijando foto? Vai beijar uma mulher de verdade!
Quando a noite chegou, os quatro amigos estavam sentados em uma mesa da sorveteria. Lá também vendia hambúrgueres, refrigerantes e outras guloseimas. André montou toda a estrutura da banda no papel e foi detalhando para os amigos. A primeira coisa a fazer era conseguir patrocínio para a gravação de um CD demo e eles esperavam conseguir isso na festa de aniversário do Victor. Reuniriam os amigos, fariam uma festa junina e pediriam a colaboração de todos.
- Por isso que eu acho que deveríamos convidar os pais. – ponderou Victor.
- E como vou agarrar a Patrícia? –perguntou Humberto.
- E como vou beijar a Luiza? – questionou André.
- Co-como vou bei... beijar a Suza-zaninha? Ah, vocês sabem quem é...
Victor tentou convencer os amigos.
- Eu libero o meu quarto... Vocês dizem que vão mostrar a minha coleção de... alguma coisa.
- Sei... Vou mostrar a foto que você estava beijando.
- Que foto, Humberto?
Humberto pegou um guardanapo e começou a beijá-lo, imitando o amigo.
- Ah, André... Eu peguei o Victor beijando uma foto... Todo apaixonado!
Augusto gargalhou forte, deixando o amigo sem graça.
- Querem saber? A festa é minha e vou convidar todos os pais, sim!
Humberto tomou um gole de refrigerante.
- Você ta afim de alguma coroa, cara?
O coração do Victor disparou: “Será que a manota tinha sido tão grande assim”? Agora ele estava na defensiva. “Que coroa, o quê...” É que ele queria fazer uma festa que reunisse todas as famílias, uma confraternização em pleno mês de junho. Uma super quadrilha! E com mais pessoas, mais grana nas barraquinhas...
- O Victor tá certo... – Disse André – os nossos pais precisam conhecer o nosso projeto e nada melhor do que uma festa.
- Comeu titica?
- Humberto, pensa melhor... Precisamos da grana, cara.
- Oi, gente...
- Joana...
Augusto levou um susto. Quem tinha chamado aquela garota chata para a reunião? Todos cumprimentaram a menina e Augusto se fingiu de surdo-mudo. Ela se sentou ao lado do André e este apresentou o projeto para a amiga.
- É isso. Se você topar, o teclado é seu.
- Topo! Vai ser muito legal participar de uma banda... Poderemos tocar em asilos e creches.
Augusto criticou a idéia.
- Bo-boa... até arrrrrepiei...
Joana não deu ouvidos e perguntou:
- E como a banda vai se chamar?
- Os tra-trapalhões e a no-noviça – sugeriu Augusto, em tom de ironia.
Os três olharam para o rapaz e ele se levantou, pedindo um hambúrguer para levar pra casa. Joana sorriu e esperou a resposta dos meninos quanto à questão do nome da banda.
- Não pensamos nisso ainda...
- Vamos pensar... Mas tem que ser algo bem original.
Joana ficou pensativa e, olhando para o Augusto, enquanto este pagava o lanche, sugeriu:
- Que tal uma homenagem àqueles desenhos animados antigos, dos anos 60 e 70, que ainda são muito famosos?
Humberto ficou curioso.
- Qual desenho?
- Podemos utilizar um personagem...
- Que personagem, Joana?
Joana disse em um bom tom de voz:
- O Gaguinho... Vocês se lembram do Gaguinho? Gaguinho, a Banda.
Augusto não acreditou no que ouviu e deixou o sanduíche cair no chão. Isso foi um bom motivo para a gargalhada geral da turma. Porém, Joana mudou sua expressão para séria e pensativa. O seu olhar estava fixo em uma janela no segundo andar de uma das casas da rua. Os meninos olharam para a mesma direção: era o quarto do misterioso Reginaldo. Um jovem que havia se mudado há dez anos para a rua e nunca saíra daquele quarto. Talvez fosse um pouco de exagero, mas o garoto só ia à escola e, mesmo assim, de carro, com um motorista particular. Era o riquinho daquela rua. Pelo menos, tinha um padrão de vida melhor do que o dos vizinhos. Já circulava uma lenda de que ele era avesso ao sol, à lua e até ao sereno. Devia ter algum problema de saúde. As crianças o chamavam de lobisomem, vampiro etc. Mas Joana ficava instigada com tanto mistério. O que, afinal, Reginaldo tinha? Que mistério ele guardava? A cortina do quarto se mexeu e a turma ficou apreensiva. Será que ele ia aparecer?
- Você já viu o rosto dele? – perguntou André.
- Nunca, e vocês? – respondeu Joana.
Todos balançaram a cabeça, negativamente. Atrás da cortina, percebia-se a sombra de um rosto e o vento, naquele momento, fazia um barulho intenso. Os galhos das árvores balançavam fortemente.
- Muito estranho...



***
No outro dia, André se levantou cedo para a entrevista de um estágio na redação de um jornal. Seria o seu quarto estágio desde que ingressou na faculdade. Porém, esse seria diferente, já que o estágio era num dos maiores jornais da cidade. Se ele conseguisse fazer carreira lá, perpetuaria seu nome no jornalismo nacional. Pensava no dinheiro que iria ajudar nos custos mensais e... Ouviu-se uma freada de carro e André estava no chão. Foi uma pequena encostada, mas o suficiente para jogar o rapaz no chão e machucar sua mão. O motorista saiu correndo, desesperado para acudir André. Ajoelhou-se e perguntou em um tom aflito:
- Você está bem?
André leva outro susto. Não era um motorista, era uma motorista.
- Regina?!
Sim, era a Regina!
- André?!
Sim, era o André!

***

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2 comentários:

  1. Paraaaaaaaaaaaabéns!!!!!!!
    Li os 2 capítulos e encantei.
    Muito sucesso!

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