sábado, 19 de março de 2011

ANÁLISE DA NOVELA “O CLONE” ATRAVÉS DAS IDÉIAS DE ADORNO E MORIN SOBRE INDÚSTRIA CULTURAL.


                 Para Adorno, Indústria Cultural e Cultura de Massas são sinônimos. Porém, Adorno utiliza da palavra Indústria Cultural em seus estudos devido o aspecto industrial e o excessivo consumo que ela pode trazer.
                   Veremos alguns conceitos de Adorno analisando a novela “O Clone” e depois veremos algumas idéias de Morin sobre a Indústria Cultural utilizando o mesmo produto.
                   Adorno diz que a indústria cultural nos leva ao consumo. Há uma criação de diversas marcas para o consumo. A novela O Clone têm vários exemplos de impulso ao consumo. O primeiro delas, o CD que contém a trilha sonora. As músicas que embalam os romances de Jade, as cenas em Marrocos e no Rio de Janeiro. A abertura da novela que é repetida todos os dias como um hino são anunciados em comerciais da própria emissora e vendidos em CD que é produzido pela Som Livre, braço direito das Organizações Globo no mundo fonográfico. O consumo está presente nas roupas e nos objetos que as personagens usam. A Globo, no término da novela, põe a venda estes produtos no seu site Globo.com ( onde há outros produtos da emissora) para os internautas. Além disso, durante a exibição da novela o público é levado a repetir a moda de seus personagens favoritos e o comércio fabrica roupas, brincos, móveis para venderem. O consumidor é manipulado e arte se torna uma mercadoria.
         O sucesso da novela O Clone o faz estar no imaginário da maioria dos brasileiros o tempo todo. Em algum momento se discuti sobre o encontro do Clone com o seu “irmão original”, a beleza de Jade e a discussão sobre as drogas que a personagem Mel inseriu na novela.
         A beleza da atriz Giovani Antonelli, a Jade, é um exemplo do que o Adorno chamava de vedete. A indústria Cultural necessita de uma vedete para ajudar vender seu produto. Na novela, há vários exemplos de vedetes. A jovem Débora Fallabela, a Mel, é uma jovem bonita que está nos padrões aceitáveis dentro de uma cultura que cultua a beleza como sinônimo de sucesso e conquista.
         A cultura de massa é maquiada para Adorno. O núcleo pobre da novela das oito nos mostra personagens felizes, com roupas aceitáveis pelo Padrão Globo de Qualidade. Bordões são inseridos para que o público os repita e, assim, a novela estará ainda mais fixado em suas cabeças. Ora, o brasileiro é um povo feliz e pacífico, mas passam fome, lutam para conquistar qualquer  quantia em dinheiro e não estão o tempo todo arrumados e bem humorados criando bordões. O mundo real não pode ser representado na TV, porque isto assustaria o público da novela. Eles querem assistir o imaginário, o bonito e o que seria ideal para sobreviver neste país.
         Esta distorção do real é, também, vista claramente no clone perfeito que surgiu na novela. Até neste exato momento nenhum cientista fez um clone humano e não se sabe se será uma “criação” perfeita como o da novela. E outro detalhe: será que um clone humano teria recordações do passado da sua “matriz”?
        
MORIN E A INDÚSTRIA CULTURAL.

         Vamos analisar algumas idéias de Morin que somam-se perfeitamente com os conceitos de Adorno.
         A novela O Clone é claramente um produto da mídia, da Rede Globo, que está exposto a 60 milhões de brasileiros todos os dias. Uma vitrine perfeita para mudar valores, acrescentar outros e que tenhamos uma visão de mundo de acordo com os produtores desta emissora. Portanto a autora de O Clone, Glória Perez, não pode escrever sozinha uma novela com tanto poder de persuasão.  
Ela é pressionada pelo ibope o todo tempo, muda a sua criação em função da aceitação do público e dos índices de audiência que é o valor mais importante de uma emissora de TV. “O autor (...) tende a se desagregar com a introdução das técnicas indústrias na cultura. A criação tende a se tornar produção.”(p.29). Fugindo um pouco de O Clone e voltando em 1989, quando a Globo exibia O Salvador da Pátria, em um ano eleitoral, os brasileiros estavam votando novamente para Presidente; o autor Lauro César Muniz que matava o seu personagem Sassá Muttema( um político corrupto e ditador) foi pressionado pela direção da Globo que mudasse tudo. A personagem de Lima Duarte ficou honesto, decente e carismático de uma hora para outra e terminou feliz ao lado de sua amada.
         Outra idéia que o Morin cita na página 25: “(...) A indústria cultural precisa de unidades necessariamente individualizadas. Um filme pode ser concebido em função de algumas receitas-padrão( intriga amorosa, happy end) mas deve ter sua personalidade, sua originalidade, sua unicidade.” Bom, podemos transportar estas idéias para o produto que estamos analisando. A Mel, têm uma grande chance de terminar bem, conscientizada do perigo das drogas,  viver feliz com seu namorado e sendo um exemplo de perseverança na luta contra as drogas. Um perfeito final feliz. Isto acontece no nosso dia a dia, mas há outro final menos feliz para outros viciados. E , possivelmente, este outro exemplo como a morte de um drogado será retratado em um personagem menor e menos carismático da novela. Não pode tirar um final feliz da mocinha que tem os padrões de beleza cultuados pela sociedade e que tem um bom padrão de vida.
         Outro ponto defendido pelo Morin em que se dá a perda da hegemonia do autor com sua obra é o que ele chama de Zona Central. Tudo que faz sucesso está no centro da mídia. E para que o produto continue fazendo sucesso, o autor está sendo obrigado a dividir a sua obra com a máquina industrial que se tornou a cultura. A novela é fruto das idéias de Glória Perez , mas é escrita por diversas mãos de acordo com os interesses da Globo.
         Há de ressaltar uma diferença na novela O Clone, vemos uma tentativa de alertar os jovens sobre o perigo das drogas e a própria mídia divulga que 445 dependentes da droga procuraram o Conselho Estadual Antidrogas no final de abril. Até março, os números eram de 215. Esta pesquisa foi feita pelo Jornal do Brasil de 03 de maio. Por outro lado, vemos a Globo aumentar seus lucros e seu poder de influência com a revista Época de 06 de maio que retrata na capa, como matéria principal, “A TV CONTRA AS DROGAS”, mais uma forma de vender o seu produto principal, O Clone, e aumentar as vendas de sua revista semanal. Fazendo do público, um consumidor foraz e menos crítico. Já que a TV propõe aos telespectadores algo aceitável e mastigável. Problemas que serão esquecidos depois do fim da novela. Problemas que apenas servem para vender.

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