sexta-feira, 26 de agosto de 2011

CALAMBAUENSE FUTEBOL CLUBE x PIRANGA ESPORTE CLUBE

*Texto escrito em 1934 pelo meu amado avô José Maria Peixoto, conhecido como Zizinho Peixoto. Foi escrivão de Cartório de Paz e Notas e irmão do Zuzu Peixoto,  ex-prefeito de Piranga, durante três mandatos.

Lembranças de Calambau

Quem irá relatar para nós esta partida realizada em Calambau , há 76 anos, é o jovem atleta e também cronista esportivo do jornal “ A Verdade” , editado em Calambau, José Maria Peixoto, o Zizinho Peixoto. O Zizinho é piranguense, tendo vindo para Calambau no início da década de 30, com o seu pai José Inácio Peixoto, que aquí exerceu o cargo de escrivão do Cartório de Paz e Notas.Vamos ao relato do Zizinho Peixoto:

“Em maio de1934, contando apenas meus quinze anos, ingressei aqui em Calambau no futebol, estando naquela época na frente do mesmo o nosso amigo José
Matias de Moura. Diretor rígido que, quando dizia que pau era pedra, tínhamos que
concordar, senão o jogador passava a ser a “pelota”. Eu era magro,estava na fase de desenvolvimento e não podia fazer excessos. O nosso diretor, que era presidente, treinador, diretor esportivo e o “diabo a quatro”, achou-me com cara de “meia-direita”
e me ordenou:- “vai jogar aí, pode correr o campo todo, se não der no couro o mandarei para o golo”. Lá fui eu correndo mais que relâmpago no céu. Não estava agüentando, mas o prazer de jogar fazia do espeto de cozinha uma espada habilmente manejada nas mãos de um cavaleiro. No meu terceiro treino, o nosso diretor reuniu a turma no centro do gramado e formalizando-se, falou com a devida autoridade:-“precisamos treinar muito, porque de hoje a um mês vamos enfrentar o Piranga Esporte Clube:nestas alturas
eu perguntei: -“ eu vou jogar no golo ou na linha?”, vindo logo a resposta:” onde eu mandar!”.
Ingressara juntamente comigo no futebol o meu amigo Zizinho Fernandes, residente hoje na cidade de Rio Espera e este, melhor atleta do que eu e por ser cunhado do diretor José Matias de Moura, tinha mais cartaz e era o “Gilmar” do dia; no “golo” nem mosquito passava.Eu, sentindo que não desempenhava o papel no ataque, propus ao meu amigo Zizinho Fernandes conversarmos com o Matias para uma troca de lugar,
Pois ficaria apaixonado se não fizesse parte no “team” contra o Piranga Sport Clube.
Tudo combinado lá se foi o “Gilmar” conversar om o “Zezé Moreira”, enquanto eu ficava a beira do gramado aguardando o resultado. Foi tran-chan...mas contra mim...
-“ quem não dá pra fubá, desocupa o lugar”, foi a resposta do nosso diretor esportivo.


Continuamos os preparos para o encontro com os crakes do Piranga, os quais eram naquele ano de 1934: Zé de Matos-Jeremias-Geraldo Milagres-Martelo- Percílio e
Lau-Andó-Chico Navais-Zé Ildefonso-Quidó-Godó.
Quanto mais se aproximava o momento do encontro esportivo, mais se apoderava de mim o receio de não jogar, pois cada dia doía uma parte do corpo. As pernas,então, não
eram minhas.
A notícia correu os quatro cantos do velho Calambau, que naquele tempo não tinha estradas nem telefone eficiente. No domingo que precedeu o jogo, após a missa, era o assunto do dia:- a vinda do Piranga Esporte Clube. Rodas e mais rodas de
Esportistas comentavam:- O Piranga Esporte apanhou aqui em 1925, 2x0; os gols foram feitos por Dr. Cristovam e Levindo Chagas ( este até hoje “baba” ao contar como foi feito o seu golo; descreve lance por lance de sua corrida pela extrema, até a cruzada da pelota que passou no ângulo com uma cabeçada do Dr.Cristovam), mas , diz o Levindo:-“ o golo foi meu”.Eu corria roda por roda,tomando parte no assunto, mas, interiormente,roia o receio de não fazer o meu farol .
Na ante-véspera do jogo, recebemos pelo correio(pois telefone era como hoje, “neca”), a confirmação da vinda dos campeões da época. Sábado, fui acordado antes do alvorecer por um companheiro, que sentia comigo as minhas dores esportivas- Xisto de Freitas, hoje residente em Ouro Preto, que veio trazer-me a boa nova de que eu iria jogar no golo, por ter Zizinho Fernandes, em serviço, contundido um pé. Suspirei
Fundo,pois, como meia direita, só se fosse enfrentar defuntos.


Domingo! Salvo engano, dia sete de junho de 1934, enfim chegara o dia da luta esportiva.Naquele tempo só se celebrava aqui, aos domingos, uma missa. Cedo ainda levantei-me , indo ajudar a dar o expediente para arranjar o local da recepção- a República- para a caravana que, conforme ofício, chegaria a cavalo às onze horas. Distraído com os preparos da recepção, me esqueci da missa e quando corri à Igreja, já o Padre dava o “Ite missa est”.
Onze horas e poucos minutos,um foguete é ouvido no alto do sítio à entrada de Calambau. Todos nós nos aglomeramos ao lado da antiga Matriz, pois a República seria em casa de propriedade do Sr. Juca Couto. Mais alguns segundos e chega a caravana piranguense, composta de vinte cavaleiros, tendo à frente o zagueiro Jeremias, que gritava para dez, seguido por Geraldo Milagres, sempre calado e de pouca conversa;não podendo esquecer de Quidó, com seu corpo tão pesado, que o animal arquejava, e de Zé Ildefonso, com sua conversa macia,mas, perigoso quando mandava um pelotaço em goal, e assim todos os demais.Chico Navais, baixinho, mas que corria como o pensamento; Godó, novo na pelota, no entanto o assombro da época ; Martelo, que era mesmo de martelar, pois quem passasse por ele podia contar com uma“chutada”
em ponto pequeno; Ando, menino ágil no manejo da bola, que não sabia o que era jogo bruto,mas que topava qualquer parada; Zé de Matos, Percílio e Lau, também em côro acompanhando Jeremias no seu:-“queremos doce, conhaque e cerveja”.
Houve a recepção de praxe. Eu e o Matias apertamos a mão de um por um, os alojamos na República e fomos juntar a nossa turma, pois já era hora do
“ pega pra capar”. Quando conseguimos deixar a República já eram treze horas, e. o jogo seria às quinze horas..Às catorze horas estava o nosso quadro em ponto de bala e era o seguinte:-Peixoto, Matias,Yayà; Joventino de Helena-João de Moura-Tito Paca: Gustavo de Moura –Moacir Morais-Manoel Calambau-Vavá-Aníbal Diogo.
Eu, cheio de orgulho, envergava o uniforme de guardião, para a primeira vez na vida enfrentar um time de foot-baal... e que time! Piranga Esporte Clube, o invencível da redondeza.
Saímos para o campo, que era quase três kilômetros da rua. Mais de mil pessoas estavam presentes para assistir a pugna.No percurso para o campo,
O nosso diretor José Matias chegou-se a mim e disse:-“ se você não deixar passar nenhum golo, nós o traremos carregado na volta”; isto para mim foi uma grande animação.
Estamos formados em meio do gramado; campo escolhido;
árbitro do Calambauense F. Clube, pois assim se chamava o primeiro club em que ingressei em minha estréia; dada a saída... aí é que foram outros quinhentos...recordar é viver, mas, daí para diante os visitante não terão vida em recordar; os visitandos sim, tem prazer em relembrar aquela partida de vinte e três anos atraz, pois o time que era o campeão da zona só conseguiu ir às redes do Calambauense apenas uma vez, com um petardo de Chico Navais, nos últimos instantes da partida. Perguntaríamos agora ao Zé Ildefonso, ao Andó, Quidó e Godó- porque não fizeram das suas? E todos nos responderíamos em côro :-“jogamos futebol e não pegamos touro a unha”.
Terminou a partida com 1x0 para eles, mas a farmácia do Moacir Morais foi pequena para receber os visitantes que lá foram para se medicarem de contusões, dente quebrado, arranhões, etc.
Jeremias nestas alturas não queria mais doce, nem conhaque e cerveja;queria um bom cavalo para sair daqui mesmo de uniforme. Lembro-me que cheguei a ele e lhe perguntei:”Então Jeremias, teve boa a partida?” ao que ele respondeu:-“ o dia que vocês forem a Piranga, darei a resposta”.
Eu e o Zé de Matos, jogamos folgados durante os noventa minutos ;-ele porque a defesa de Piranga cercava até vento e eu porque a linha piranguense não se atrevia passar pela nossa defesa , só disputava com a mesma pela frente e a um metro de distância... O golo que passou foi devido a um gesto repentino de Chico Navais, que dando no Matias um chutizinho na rótula, passando uma rasteira em Yayá e gritando para mim com os olhos esgazeados: “não chega não”, mandou a pelota e eu,marinheiro de primeira viagem , achando que a minha seria pior, deixei a pelota em paz.
Mas, tudo isto é apenas para um “Recordar é Viver”, pois mais tarde, depois que todos estavam de gaze e esparadrapo para cima, inclusive o Jeremias, que se achava mais calmo fomos tomar um lanche, brindar a saúde dos dois clubes e ouvir discursos e declamações, após o que regressaram os meus conterrâneos, deixando aqui um ambiente de verdadeira cordialidade.
Foi assim caros leitores, a primeira vez que joguei foot-ball em minha vida.
Hoje com os meus quarenta anos, só sirvo do foot-ball
para um “Recordar é Viver”.


E assim o cronista esportivo do jornal “ A Verdade” de
Calambau, José Maria Peixoto, o Zizinho Peixoto, descreveu esta memorável partida de futebol entre o Calambauense Futebol Clube e o Piranga Esporte Clube, realizada em Calambau em maio de1934

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Calambau, 26 de outubro de 2.010

Murilo Vidigal Carneiro

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Os últimos momentos da vida de uma libélula

Boa, Clarice Lispector!

Não me dêem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre.
Não me mostre o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração!
Não me façam ser o que não sou, não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente!
...Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão.

Clarice Lispector

sábado, 20 de agosto de 2011

Seu Baltazar da Rocha!

Isso sim era humor bem brasileiro. Quem não ria da Escolinha do Professor Raimundo nas noites de sábado?