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André tentou adiar a sua ida ao banco, mas não conseguiu. Assim que o relógio bateu 10 horas, lá estava ele saindo de sua casa, na Rua Jornalista Alexandre Lana Lins, para ir ao banco, que ficava a quinze minutos dali. Distraído, percebeu que já estava na fila, aliás, uma enorme fila e havia se esquecido de levar um livro ou uma revista para ler durante a espera. Mas passou o tempo observando as pessoas... Boys, idosos, donas de casa, executivos, jovens... Jovens? Que linda morena é aquela que está a “três pessoas” na sua frente? Poxa, linda mesmo. André não conseguia tirar os olhos dela e ela começou a perceber. Viu que a moreninha tinha nas mãos um carnê e parecia que era da faculdade. Devia ter uns 19 anos e era, realmente, linda. Os minutos foram passando e a moreninha chegando ao caixa. O que seria ruim, pois logo, logo ela iria embora e, ao mesmo tempo, muito bom, pois estava chegando a vez de André e ele sairia daquele martírio. “Estranho...”, percebeu André, “este banco não tem a porta giratória...” - Mãos ao alto! Isto é um assalto! Ou melhor, todos no chão, senão levam bala. Era um assalto e todos estavam apavorados, no chão. Tudo passava muito rápido e a sensação era de que nada daquilo estava acontecendo. Os cincos assaltantes renderam os guardas e os caixas e pegaram todo o dinheiro, isto em poucos minutos. André ficou debaixo de um assaltante e notou que a calça do sujeito estava furada. Desviou o olhar e percebeu que ao seu lado estava à moreninha, rezando baixinho. O rapaz não pensou duas vezes e pegou na mão da moça. Ela aceitou. Também, fazer charminho àquela hora... Quando os assaltantes foram embora, os clientes do banco estavam desnorteados. Passavam mal e agradeciam por estarem vivos. André ajudou a moreninha a se levantar. - Tudo bem? - Sim... Um silêncio. André se apresentou. - André, prazer! - Regina... André sorriu e perguntou à moça se o acompanharia numa lanchonete ali perto. Ela aceitou. Tomando refrigerante e recuperando-se do susto, Regina reparou que André estava com as mãos trêmulas. - Como está difícil com essa violência... - Pois é. Não temos mais paz. Você está melhor? - Sim e você? - Um pouco assustado, disse André. Regina sorriu e André também. Que maneira mais estranha de convidar alguém para tomar um refrigerante. - Que curso você faz? – perguntou o jovem - Meu Deus! Tenho que pagar a faculdade! – Regina se lembrou. - Eu também... - Faço Letras, e você? - Jornalismo... - disse o jovem. - Quero fazer! Vou terminar Letras e partir pro jornalismo... Gosta? - Sim. - Que sim devagar... - Tem seus altos e baixos, mas é um curso muito bom. - Letras também... Mas o meu sonho é seguir o jornalismo! - Vamos ser colegas... - Você mora aqui perto? - Rua Jornalista Alexandre Lana Lins, e você? - Na rua acima... Minha vó mora na sua rua. Uma rua bonita, né? Só tem casa, bem arborizada... - Eu gosto muito, Regina. Nasci lá... É onde moro há 25 anos. - Parece que você tem mais. Daria uns 28 pra você... - Legal... – André sorriu amarelo e Regina percebeu a gafe. -Desculpe, mas é verdade. Não fique triste, você está bem... - e riu novamente. André notou o sorriso lindo da Regina. Cabelos pretos compridos, ondulados, uma boca carnuda, altura mediana, olhos pretos como jabuticaba e um corpo lindo. - Bom, tenho que ir. Vou pagar essa conta depois, hoje eu não entro mais naquele banco. - É... Vou pagar a minha depois também. Quer anotar o meu celular, ou seu namorado vai se importar? - Não, ele não se importa não... Que balde de água fria. Ela tem namorado. - E você, tem namorada? - Paqueras... “André, que ridículo, mentindo...”, pensou ao dar a resposta. - Bom, anota aí... André pegou o celular e anotou o número. Sem que ela percebesse, colocou na sua agenda “Rê, a morena”. *** Na Rua Jornalista Alexandre Lana Lins tem uma casa com um enorme pé de romã. Fica depois da famosa sorveteria, onde é o encontro das famílias e dos jovens daquela região. O pé de romã cobre a janela do quarto de Augusto, amigo do André e apaixonado pela sua namorada virtual: a Anjinha. Lá estava ele, conversando com ela pelo Messenger. Teclavam há mais de um mês. - Ei, que dia vc vai me mostrar a sua foto? - Vc disse que aparência física não interessa. - Disse, mas a curiosidade é maior. Vc está vendo a minha foto. - Pq vc quis mostrar. - Tá certa... E que dia nós vamos nos encontrar? - Hj vc tá me cobrando, hein mocinho? - Estou doido pra te conhecer... André joga uma semente de romã pela janela do quarto do Augusto e acerta o seu rosto. - Augusto! - Tá doido, André... qua...quase que acerrrrta o meu computa....dor. - Augusto é gago. André aparece na janela entre as folhas do pé de romã. - Que tá arrumando? - To con-conversando com a Anjinha... - Rapaz, estava no banco agora... - Vou só me despe-pepedir da Anjinha... - O banco foi assaltado. Augusto levou um susto. - Ma-machucou-se? - Não... Mas conheci uma linda moreninha que machucou o meu coração. Augusto fez uma careta e colocou a mão na testa... DÃN!!! - Vou nessa. Você vai à sorveteria mais tarde? - De-devo. Aqui... pensou na nossa ban-banda? - É isso que quero acertar com você e com o resto do pessoal. *** Victor estava ouvindo Jota Quest no seu quarto, com um fone de ouvido, um microfone dublando a música e tirando alguns sons do seu violão. “Quero um amor só meu...” Em um momento, parou a dublagem, abriu a gaveta de sua escrivaninha e viu a foto de uma mulher. Ao lado dela, o seu amigo Humberto, o galã da turma. Como era engraçado ver a turma chamando o Humberto de “Thiago Lacerda” da rua, mauricinho do bairro e outros adjetivos. Mas Humberto era um grande amigo, com pais separados e um carinho enorme destinado à sua mãe, Tereza. Victor se sentou na cama, pegou a foto e observou os dois. Suspirou fundo e beijou a foto. Completaria 19 anos no próximo mês e faria uma super festa, mas a turma queria a presença só dos amigos. Nada de pais. Mas o Victor queria... Queria a presença de Tereza. Fazia questão de dançar com ela e vê-la a todo o momento. A diferença de 20 anos não assustava o rapaz: o que Victor realmente queria era beijar os lábios de Tereza. O som alto do seu quarto não deixou que ele ouvisse Humberto entrando. - Que isso, Victor? Victor se assustou e, rapidamente, jogou a foto embaixo da cama. - Beijando foto? Humberto se agachou para procurar a foto. - Agora eu quero ver quem você estava beijando. – Ele riu. – A turma vai adorar esta história. - Humberto... pô, você não vai invadir minha privacidade. Humberto morria de rir. - Você vai me desculpar, amigo, mas essa eu vou ter que saber...
Alexandre Lana Lins
Jornalista e escritor
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