Caminhar contra o vento

26/02/2010 (269 acessos)
 

André tentou adiar a sua ida ao banco, mas não conseguiu. Assim que o relógio bateu 10 horas, lá estava ele saindo de sua casa, na Rua Jornalista Alexandre Lana Lins, para ir ao banco, que ficava a quinze minutos dali. Distraído, percebeu que já estava na fila, aliás, uma enorme fila e havia se esquecido de levar um livro ou uma revista para ler durante a espera. Mas passou o tempo observando as pessoas... Boys, idosos, donas de casa, executivos, jovens... Jovens? Que linda morena é aquela que está a “três pessoas” na sua frente? Poxa, linda mesmo. André não conseguia tirar os olhos dela e ela começou a perceber. Viu que a moreninha tinha nas mãos um carnê e parecia que era da faculdade. Devia ter uns 19 anos e era, realmente, linda. Os minutos foram passando e a moreninha chegando ao caixa. O que seria ruim, pois logo, logo ela iria embora e, ao mesmo tempo, muito bom, pois estava chegando a vez de André e ele sairia daquele martírio. “Estranho...”, percebeu André, “este banco não tem a porta giratória...”
- Mãos ao alto! Isto é um assalto! Ou melhor, todos no chão, senão levam bala.
Era um assalto e todos estavam apavorados, no chão. Tudo passava muito rápido e a sensação era de que nada daquilo estava acontecendo. Os cincos assaltantes renderam os guardas e os caixas e pegaram todo o dinheiro, isto em poucos minutos. André ficou debaixo de um assaltante e notou que a calça do sujeito estava furada. Desviou o olhar e percebeu que ao seu lado estava à moreninha, rezando baixinho. O rapaz não pensou duas vezes e pegou na mão da moça. Ela aceitou. Também, fazer charminho àquela hora...
Quando os assaltantes foram embora, os clientes do banco estavam desnorteados. Passavam mal e agradeciam por estarem vivos. André ajudou a moreninha a se levantar.
- Tudo bem?
- Sim...
Um silêncio. André se apresentou.
- André, prazer!
- Regina...
André sorriu e perguntou à moça se o acompanharia numa lanchonete ali perto. Ela aceitou. Tomando refrigerante e recuperando-se do susto, Regina reparou que André estava com as mãos trêmulas.
- Como está difícil com essa violência...
- Pois é. Não temos mais paz. Você está melhor?
- Sim e você?
- Um pouco assustado, disse André.
Regina sorriu e André também. Que maneira mais estranha de convidar alguém para tomar um refrigerante.
- Que curso você faz? – perguntou o jovem
- Meu Deus! Tenho que pagar a faculdade! – Regina se lembrou.
- Eu também...
- Faço Letras, e você?
- Jornalismo... - disse o jovem.
- Quero fazer! Vou terminar Letras e partir pro jornalismo... Gosta?
- Sim.
- Que sim devagar...
- Tem seus altos e baixos, mas é um curso muito bom.
- Letras também... Mas o meu sonho é seguir o jornalismo!
- Vamos ser colegas...
- Você mora aqui perto?
- Rua Jornalista Alexandre Lana Lins, e você?
- Na rua acima... Minha vó mora na sua rua. Uma rua bonita, né? Só tem casa, bem arborizada...
- Eu gosto muito, Regina. Nasci lá... É onde moro há 25 anos.
- Parece que você tem mais. Daria uns 28 pra você...
- Legal... – André sorriu amarelo e Regina percebeu a gafe.
-Desculpe, mas é verdade. Não fique triste, você está bem... - e riu novamente.
André notou o sorriso lindo da Regina. Cabelos pretos compridos, ondulados, uma boca carnuda, altura mediana, olhos pretos como jabuticaba e um corpo lindo.
- Bom, tenho que ir. Vou pagar essa conta depois, hoje eu não entro mais naquele banco.
- É... Vou pagar a minha depois também. Quer anotar o meu celular, ou seu namorado vai se importar?
- Não, ele não se importa não...
Que balde de água fria. Ela tem namorado.
- E você, tem namorada?
- Paqueras...
“André, que ridículo, mentindo...”, pensou ao dar a resposta.
- Bom, anota aí...
André pegou o celular e anotou o número. Sem que ela percebesse, colocou na sua agenda “Rê, a morena”.
***
Na Rua Jornalista Alexandre Lana Lins tem uma casa com um enorme pé de romã. Fica depois da famosa sorveteria, onde é o encontro das famílias e dos jovens daquela região. O pé de romã cobre a janela do quarto de Augusto, amigo do André e apaixonado pela sua namorada virtual: a Anjinha. Lá estava ele, conversando com ela pelo Messenger. Teclavam há mais de um mês.
- Ei, que dia vc vai me mostrar a sua foto?
- Vc disse que aparência física não interessa.
- Disse, mas a curiosidade é maior. Vc está vendo a minha foto.
- Pq vc quis mostrar.
- Tá certa... E que dia nós vamos nos encontrar?
- Hj vc tá me cobrando, hein mocinho?
- Estou doido pra te conhecer...
André joga uma semente de romã pela janela do quarto do Augusto e acerta o seu rosto.
- Augusto!
- Tá doido, André... qua...quase que acerrrrta o meu computa....dor. - Augusto é gago.
André aparece na janela entre as folhas do pé de romã.
- Que tá arrumando?
- To con-conversando com a Anjinha...
- Rapaz, estava no banco agora...
- Vou só me despe-pepedir da Anjinha...
- O banco foi assaltado.
Augusto levou um susto.
- Ma-machucou-se?
- Não... Mas conheci uma linda moreninha que machucou o meu coração.
Augusto fez uma careta e colocou a mão na testa... DÃN!!!
- Vou nessa. Você vai à sorveteria mais tarde?
- De-devo. Aqui... pensou na nossa ban-banda?
- É isso que quero acertar com você e com o resto do pessoal.
***
Victor estava ouvindo Jota Quest no seu quarto, com um fone de ouvido, um microfone dublando a música e tirando alguns sons do seu violão. “Quero um amor só meu...” Em um momento, parou a dublagem, abriu a gaveta de sua escrivaninha e viu a foto de uma mulher. Ao lado dela, o seu amigo Humberto, o galã da turma. Como era engraçado ver a turma chamando o Humberto de “Thiago Lacerda” da rua, mauricinho do bairro e outros adjetivos. Mas Humberto era um grande amigo, com pais separados e um carinho enorme destinado à sua mãe, Tereza. Victor se sentou na cama, pegou a foto e observou os dois. Suspirou fundo e beijou a foto. Completaria 19 anos no próximo mês e faria uma super festa, mas a turma queria a presença só dos amigos. Nada de pais. Mas o Victor queria...
Queria a presença de Tereza. Fazia questão de dançar com ela e vê-la a todo o momento. A diferença de 20 anos não assustava o rapaz: o que Victor realmente queria era beijar os lábios de Tereza. O som alto do seu quarto não deixou que ele ouvisse Humberto entrando.
- Que isso, Victor?
Victor se assustou e, rapidamente, jogou a foto embaixo da cama.
- Beijando foto?
Humberto se agachou para procurar a foto.
- Agora eu quero ver quem você estava beijando. – Ele riu. – A turma vai adorar esta história.
- Humberto... pô, você não vai invadir minha privacidade.
Humberto morria de rir.
- Você vai me desculpar, amigo, mas essa eu vou ter que saber...
Gostou? O livro está à venda no endereço: http://clubedeautores.com.br/book/13809--Caminhar_Contra_o_Vento

Alexandre Lana Lins
Jornalista e escritor

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