*escrito em novembro/1998
Estava dentro de um ônibus lotado, calor de verão, sentado à janela e sorrindo. Sorria por estar ali, naquele ônibus em que as pessoas reclamavam do calor. Desceu e se viu diante de uma multidão no centro da cidade.
Entrou numa galeria, visitou as mais variadas lojas observando as vitrines. Parecia um menino descobrindo o ato da leitura, um jovem vivendo o primeiro beijo e o primeiro amor. Conversou com um senhor aposentado que havia pegado um serviço extra como segurança da galeria para complementar a renda, e que, ainda assim, também estava feliz.
Foi ao cinema, tomou um refrigerante, assistiu a uma peça de teatro e resolveu voltar para casa. O ônibus estava vazio — pudera, eram onze da noite. Chegou em casa, tomou banho, bebeu um leite quente sozinho na cozinha e deitou-se na cama, em um quarto escuro. Estava feliz.
Fez vestibular e passou. Essa conquista também era um dos motivos de sua alegria. Atua todo fim de semana em uma escola de teatro e vai se apresentar, com sua primeira peça, no final do ano.
Os leitores devem estar se perguntando o motivo de tamanha felicidade de nosso personagem. Eu lhes respondo.
Há seis meses ele não saía de casa, não chegava sequer ao portão. Não saía para a vida. Tinha a tal Síndrome do Pânico, que tantas pessoas classificavam como “fase da juventude”, “é o vestibular...”, “traumas da infância”... Pode até ser tudo isso, mas alguns se esquecem de que a síndrome do pânico é também um transtorno físico.
Quantas e quantas vezes esse jovem estava na pracinha de seu bairro, conversando descontraidamente com amigos, e, como num passe de mágica, as mãos começavam a suar frias, os pés também; surgiam a falta de ar, o aumento dos batimentos cardíacos, um desmaio que nunca vinha — ou a morte que se prenunciava. E não foi uma única vez: foram várias. Como namorar, sair, estudar, trabalhar e realizar todos os seus sonhos? Como viver assim?
Como evitar a depressão com essa tal síndrome do pânico?
Estava sentado em frente ao médico. Ele tinha as respostas para suas dúvidas, o tratamento adequado e a sábia competência de um bom profissional. Em seis meses de vida, já havia realizado muita coisa. Claro que ainda havia muito a superar e muito a não temer. Calma! Para quem viveu tantos anos com esse medo, seis meses são segundos. O importante — dizia o médico — é vivenciar cada momento como uma vitória. Devagar e sem anseios.
Na saída, despediu-se do médico, entrou no elevador e lembrou-se dos pais, dos irmãos. De como o ajudaram a superar todos aqueles problemas. Como é importante o apoio e a compreensão da família nessas horas. “Obrigado”, agradeceu o jovem em voz baixa e... dentro de um elevador — o que tanto temia!
Na rua, lembrava-se da primeira consulta. Achava que não conseguiria vencer a síndrome do pânico, mas, intimamente, queria acreditar. E deu certo. Sua força de vontade também o ajudou. Foi preciso que quisesse curar-se. Ele precisava querer a cura. Encontrou o profissional certo por meio de indicações de pessoas com o mesmo problema e que haviam obtido êxito.
E, por tudo isso, estava feliz!
Olhou o relógio e percebeu que estava atrasado. O encontro com a jovem seria em um shopping. Iriam tomar sorvete, conversar e passear. Conheceram-se no teatro. Da conversa nasceu um beijo, depois o namoro e, finalmente, uma vida normal, com todos os estresses do dia a dia. É... das confusões diárias não há como escapar. Mas que venham os problemas, para que sempre hajam soluções! Estava feliz por viver.