TCC
Veja o trabalho publicado na revista da Newton Paiva: https://editora.newtonpaiva.br/educacao-linguistica/
Veja o trabalho publicado na revista da Newton Paiva: https://editora.newtonpaiva.br/educacao-linguistica/
Alexandre Lana Lins Peixoto[1]
Kely Cristina S. de Aquino[2]
Lucas Hermógenes de Jesus[3]
Suely A. Gomes[4]
Viviane Gomes S. Souza[5]
Gleides Ander Nonato[6]
RESUMO
Em se tratando de Machado de Assis, considerado o maior escritor do país, há sempre o que se fomentar sobre as suas obras. Este artigo tem como objetivo geral entender a adaptação da obra Dom Casmuro para a televisão e busca verificar quais foram os impactos, tanto na linguagem quanto na aceitação do público em relação às mudanças. Para isso, foram trabalhados conceitos ligados à linguagem e à importância dessa temática nas narrativas literárias, usando de pesquisa bibliográfica realizada em livros, revistas e entrevistas em sites, como Memória Globo. Observou-se que as obras estudadas foram de grande impacto à sociedade, no que tange à linguagem e à cadência cinematográfica. Notou-se, ainda, que o que dificulta ao leitor é a ambientação. Sendo assim, a adaptação deve ser mais voltada para uma linguagem e uma ambientação que deixe o telespectador mais próximo à obra, levando, com isso, uma boa audiência à televisão, já que essa é movida por patrocinadores. Como conclusão, notou-se, por meio de dados da audiência do programa e a aceitação positiva dos críticos televisivos, que foi importante a ampliação da obra Dom Casmurro para um outro público, que não seja somente o literário, possibilitando, assim, o enaltecimento da obra.
PALAVRAS-CHAVE: Machado de Assis; linguagem; intertextualidade; audiência.
1 INTRODUÇÃO
O presente artigo procurou entender a adaptação da obra de Machado de Assis, Dom Casmurro, via televisão e, ainda, refletir as duas linguagens presentes nessas obras, que são a escrita do autor, que é mais erudita da linguagem usada na televisão, que se trata de um veículo mais popular. Não é nenhum demérito a TV ter uma linguagem mais acessível, porém é essa mudança de linguagem que determinou a pesquisa sobre como que uma obra de Machado de Assis poderia chegar a um público maior e com um formato dramatúrgico. Será que a televisão, realmente, valorizou os diálogos, os cenários e a narrativa de Machado na minissérie Capitu, baseada no livro Dom Casmurro?
Quando começamos a produzir as minisséries, queríamos um aprimoramento do que conseguimos nas novelas. De certa forma, até hoje, as minisséries provocam uma realimentação, uma releitura de novela, porque somos obrigados a usar quase a mesma estrutura dramática, mas com outro ritmo das cenas e da própria filmagem. [...] Não adianta pegar simplesmente uma história já feita e tentar usar como modelo para outra. Deve-se sempre analisar quais eram as condições do período em que foi encenada ou escrita. (FILHO, 2001, p.62)
O objetivo geral desse estudo foi entender a adaptação da obra Dom Casmuro para a televisão e quais foram os impactos, tanto na linguagem quanto na aceitação do público, em relação às mudanças. Buscando essa resposta por meio da produção televisiva e a sua linguagem, que se apropria de um livro do século XXI. Pretendeu-se elucidar todo o processo de adaptação de uma obra, que passa por várias etapas que visam desde a qualidade do produto que irá ao ar até a audiência que se pretende atingir no horário veiculado. Para isso foi preciso pesquisar a audiência (share) do programa, o interesse do público pelo programa; entender como a produção foi realizada e se houve cuidados necessários para com a linguagem de Machado. Analisou-se a literatura de Machado de Assis e o livro Dom Casmurro, bem como adaptações da literatura brasileira para a televisão, observando a dicotomia entre audiência e a qualidade do programa.
Faraco e Moura (1993), em reflexão sobre a obra Dom Casmurro, apontam que “Machado busca inspiração no homem comum, com suas ações cotidianas. (...) Machado mostra-nos, de maneira impiedosa e aguda, a vaidade, a futilidade, a hipocrisia, a ambição, a inveja, a inclinação para o adultério.” (FARACO; MOURA, 1993, p.225). E essa análise torna-se muito importante para que haja um entendimento de qual contexto Dom Casmurro foi criado e como o autor especifica em sua obra os personagens e suas características negativas. O pessimismo estava presente na literatura e na vida de Machado ao criar o livro, mas o que o diferenciou de outros autores da época foi a sua distância da intelectualidade daquele momento.
O grande escritor brasileiro formulou juízos sobre as obras alheias durante parte considerável de sua vida: de 1858 a 1879. Dos 19 aos 40 anos de idade, portanto, podemos dizer que exerceu a crítica precisamente no período de sua formação, pois é justamente depois dessa fase que dará o salto qualitativo que o aguardava na curva da História, em 1880. Depois das Memórias Póstumas de Brás Cubas é que Machado concebeu a sua ficção mais densa, mais liberta de influências, menos caudatária da atmosfera intelectual da época. (LUCAS, 2019, p.01)
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou na data de 21 de fevereiro de 2018 uma pesquisa, realizada no último trimestre de 2016, em que mostrava que de 69,3 milhões de domicílios particulares permanentes no Brasil, apenas 2,8%, ou 1,9 milhão, não tinham televisão, com destaque para o Norte do país, onde o potencial é o mais elevado.[7]
Em 2021, somente a TV Globo, que produziu a série Capitu, teve 31,2% de share (que determina o tamanho da audiência das emissoras pelo país), e, em segundo lugar, a Record ficou com 11,2%. As outras emissoras (SBT, BAND e Rede TV) somaram 13,23%.[8] Fica evidente como a TV ainda é o veículo de comunicação mais utilizado para o entretenimento, que está bem à frente de suas concorrentes. Tal resultado contribuiu para que a decisão de investigar a minissérie Capitu, pela sua abrangência com o público televisivo, e como isso impactou na valorização da obra de Machado de Assis.
Espera-se que este trabalho desperte nos leitores de Machado de Assis e no público em geral, a importância da obra em nossa literatura. Uma história que sempre é estudada pelos acadêmicos, justamente por ser um clássico da literatura brasileira. Para sustentar a análise, realizada nessa pesquisa, foi feito um levantamento bibliográfico por meio de livros, revistas, artigos e teses, entrevistas em sites, como Memória Globo. A obra que direcionou o artigo foi “TV e Literatura: Hibridismo na teledramaturgia”, do autor Felippe Bottini, mestre em Humanidade pelo Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias e Conflitos, da Universidade de São Paulo. Para Mello e Oliveira (2016), é importante a necessidade de realização de uma pesquisa bibliográfica prévia que possa viabilizar a delimitação de um assunto em tema. Sem a leitura da melhor literatura na área do conhecimento em que se pretende aprofundar saberes não há como escolher um tema para o TCC.
Dessa maneira, devem-se selecionar os melhores autores que tratam do assunto escolhido para o TCC. Verifique, ademais, a produção científica em artigos científicos que oportunizam pesquisas interessantes e atuais. Não há como proceder sem leitura exaustiva para se verificar a atualidade das obras selecionadas [...] Ora, a revisão de literatura é de fundamental importância, já que inibe pesquisas em duplicidade e fornece um quadro teórico de maior densidade ao pesquisador. Este quadro teórico dará maior sustentação e credibilidade ao trabalho científico. (MELLO; OLIVEIRA, 2016, p.141)
O artigo foi escrito destacando as duas fases da obra machadiana (Romântica e Realista). Evidenciou-se a maneira como Machado desenvolveu suas histórias em dois momentos distintos da nossa literatura. A seguir, apresenta-se um rápido estudo sobre o livro Dom Casmurro, em que o autor trouxe para o seu leitor um romance psicológico no qual o narrador-personagem deixa em dúvida se Capitu lhe traiu. O estudo continua analisando as adaptações de algumas obras literárias para a televisão e aprofundando-se na minissérie Capitu, objeto de estudo deste artigo. Por fim, faz-se uma análise de como a TV tem a possibilidade de democratizar o acesso aos livros literários, visto que amplia o alcance da obra por meio do veículo televisivo.
2 A LITERATURA DE MACHADO DE ASSIS E A TV
2.1 As duas fases da obra machadiana
O autor Machado de Assis vivenciou duas épocas de nossa literatura: a Romântica e a Realista. Na fase Romântica, ele escreveu com a intenção de mostrar uma sociedade civilizada e com brilho. No final dessa época, a literatura do autor já tinha características do movimento realista. São importantes destacar, da obra de Machado, nesse momento: escrita objetiva com frases curtas, criticando o excesso de subjetividade; o pessimismo e o ceticismo, no qual Machado passa a duvidar do ser humano. São encontrados, também, o humor e a ironia suavizando a obra. Segundo Chagas, Moreira e Almada (2009),
[...] a existência de duas fases na obra de Machado de Assis, marcadas por diferenças estéticas e pelo adensamento na crítica social. A primeira fase, a romântica, se estende até o ano de 1880, quando então se inicia sua fase mais fecunda, a realista. Sua composição textual se sofistica, aumenta sua agudeza crítica, ainda dentro de uma concepção realista de romance em que a psicologia dos personagens é codeterminada pelo ambiente social – fazendo com que a crítica social e a psicologia dos personagens se complexifiquem conjuntamente. A transição teria sido súbita, e por isso enigmática, despertando há décadas, na crítica especializada, o desejo da explicação. (CHAGAS; MOREIRA; ALMADA,2009, p 245).
Para Krause (2007) uma caraterística marcante que é lembrada até hoje na obra de Machado de Assis é sua abordagem pessimista, assim como a exposição das problemáticas da sociedade da época. O autor, por muitas vezes, optou por trazer às suas obras um tom mais sombrio, voltado ao pessimismo e niilismo[9], que pode ser associado a representações gregas e bíblicas. Essa caraterística de sua escrita é percebida ao se atentar para a escolha do autor em trazer, não heróis e heroínas em papel de destaque, mas personagens de caráter duvidoso e que seriam, muito possivelmente, mal vistos na época, apresentando uma percepção de que cada ser humano apresenta seu próprio lado sombrio e explorando tal ideia na construção de seus personagens.
Outra característica forte de suas obras é a exploração do lado psicológico dos personagens e, muitas vezes, faz um elo entre as características físicas e morais. Estratégia nitidamente explorada na personagem Virgília: o grande amor de Brás Cubas. A descrição de Virgília começa pela roupa que ela usa, a forma como comporta-se, a sua aparência física e suas características psicológicas (bonita, clara, ignorante, meio pueril, voluntariosa). Machado explora a metalinguagem, dialogando com o leitor em vários momentos dentro da narrativa. O uso de intertextos, também, está presente em suas obras. Machado de Assis dialoga com a Bíblia, com Skakespeare, com a Mitologia Grega e a Romana.
Ao consultarmos a obra de Machado de Assis, perceberemos que esse escritor realizou um intenso diálogo com a Bíblia. Teresinha Zimbrão da Silva em seu artigo, Machado de Assis e a tradição religiosa, ressalta que Machado ao realizar o diálogo com a tradição, cria a sua nova versão através de um processo de atualização de textos. (MADALLENO, 2019, p.21).
O cenário de suas obras é sempre no Rio de Janeiro e escreve da sua própria contemporaneidade. Machado foi o primeiro autor a fazer um spin-off[10] na literatura brasileira. Dentro de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), o personagem Brás Cubas tem um amigo chamado Quincas Borba; esse personagem volta a aparecer em outro livro do autor, Quincas Borba (1891).
2.2 Dom Casmurro
Publicado em 1899, Dom Casmurro é uma obra narrada em primeira pessoa. O romance traz dois pilares do Romantismo: a amizade e o amor. Um senhor solitário, que lembra o seu amor por Capitu e conta a história do melhor amigo e do seu grande amor e que acredita ter sido traído. Trata-se um narrador não confiável, já que Bentinho, personagem principal, foi ciumento desde garoto. Para Bottini (2019, p.161), “Machado, um autor negro, vivenciou tudo isso (abolição dos escravos) e absorveu essa realidade de tal forma, que, ao escrever Dom Casmurro, consegue estabelecer personagens e tramas construídas em camadas(...)”.
E, assim, o livro constitui-se de um romance psicológico que termina com uma acusação: as pistas são dadas pelo narrador, sempre tentando convencer o leitor de que ele é uma pessoa civilizada, culta, centrada e que ele tem razão. O autor escreveu o livro com o propósito de deixar o leitor sempre na dúvida se Capitu traiu ou se foi tudo imaginação de Bentinho. O personagem usa todos os seus argumentos para convencer o leitor que houve a traição, mas nunca houve prova. O tema do ciúme predomina o tempo. Trata-se de um livro aberto, no qual o desfecho é construído pelo leitor.
Considerando além dos aspectos relacionados ao processo de escrita do autor, deve-se destacar, também, o ponto de vista dos leitores a respeito da obra e como esses assumem a posição de autores para expor sua opinião crítica sobre esta. Autores, como Helen Caldwell, apresentaram sua própria visão sobre a obra, defendendo Capitu e mostrando que não se deve confiar no narrador, apresentando os fatos que a levaram a consolidar tal visão. Ao mesmo tempo autores, como Silvano Santiago, apontam que a visão defendida por aqueles como Caldwell é ingênua do ponto de vista crítico, apresentando os elementos que, em sua visão, apontam que Capitu traiu Bentinho e que o narrador, na realidade, se mostrou confiável de acordo com a narrativa proposta para a obra (GUIMARÃES, 2019)
Percebe-se, deste modo, que o autor optou por trazer uma trama direcionada a fazer com que o leitor não apenas lesse a história como mais um passatempo, mas empenhou o esforço para fazer com que seus leitores se sentissem instigados a fazer uso de seu senso crítico e tirar suas próprias conclusões sobre a história. Assim sendo, o autor criou uma narrativa aberta o suficiente para que cada leitor chegasse a suas próprias conclusões de modo que, ainda que as pessoas estivessem lendo o mesmo livro, chegassem a conclusões diferentes sobre a história contada no mesmo livro (SCHWARZ, 1997).
2.3 A literatura na TV: qualidade e audiência
O livro e a TV apresentam duas linguagens diferentes e possuem públicos distintos. Esses dois veículos de comunicação trabalham com a ausência e a presença da imagem. E essa transformação da imagem, ainda que passe pelo autor da adaptação, terá particularidades muito sensíveis e nítidas do trabalho do diretor e toda a sua equipe.
Neste ponto, pode ser acrescido o lado que corresponde à visão artística do diretor; o modo como interpreta o texto será impresso por diferentes meios estéticos e visuais na tela. Todavia, antes que ele tome determinadas decisões, há um processo antecessor a este que corresponde à análise das escolhas narrativas feitas pelo autor da obra. (BOTTINI, 2019, p. 142)
É importante a sinergia entre o autor e o diretor para que uma adaptação literária seja compreendida por um público diferente e que ele, fielmente, passe a acompanhar a narrativa, assim como acompanha uma novela às nove da noite. A TV vive de patrocínios e para tê-los é preciso de um bom número de televisores ligados naquele programa e, por mais que a TV teste novos modelos de narrativas e diferentes modelos estéticos para as suas minisséries, é preciso que a mensagem (a história) chegue ao público.
Um clássico de Machado de Assis, como Dom Casmurro, é uma grande aposta em uma emissora de TV. É unir o erudito com o popular, em uma linha tênue, no qual qualquer exagero em ambos os lados afugentam os telespectadores do horário nobre da TV. Quem se propõe a dormir depois das 11h da noite para acompanhar uma minissérie é aquele telespectador que se envolveu com a narrativa, com o trabalho de direção e estético apresentados.
Quando um diretor se propõe a fazer uma adaptação literária, ele realiza opções estéticas para contar determinada história. [...] O diretor, portanto, pode adaptar uma obra do século XVIII, adotando uma estética realista, condizente com o que é narrado pelo autor, como também pode propor uma releitura estética, realocando a trama em outro espaço e tempo. (BOTTINI, 2019, p. 145)
Outro fator importante para que uma adaptação literária desperte a atenção do público da televisão é que a linguagem seja direta, objetiva e simples. São muitas informações para serem absorvidas em pouco tempo. Imagem, áudio, texto. Não há tempo de “degustar” a história. Tudo é muito rápido e mais objetivo. E isso é a explicação por que algumas adaptações fizeram mais sucesso do que as outras. E não foi o caso do O Primo Basílio, do romance de Eça de Queiroz.
Quando já estávamos andando com a adaptação, Gilberto (Braga, autor da adaptação) começou a demonstrar preocupação. Ele temia pelo sucesso de Basílio, e seu temor era baseado no fato de todos os personagens serem “medíocres”. Algo que vai contra um fundamento da novela e da teledramaturgia: tem sempre que haver um herói ou uma mocinha. Todos os personagens do Primo Basílio são frágeis, criticáveis em sua maneira de ser. (...) mesmo assim, respeitamos o texto de Eça e não fizemos as alterações que hoje provavelmente teríamos feito. Basílio não atingiu uma audiência significativa, apesar de ter sido muito considerado pela crítica. É um sucesso pelo tempo em que permanece na memória das pessoas. (FILHO, 2001, p. 162) (Destaque de Filho)
Quando a minissérie Os Maias, outro clássico do autor Eça de Queiroz, foi ao ar em 2001, a TV Globo vivenciou o mesmo problema que ocorreu no passado. Com a expectativa de uma média de 30 pontos, o programa teve somente 17 a 18 pontos de audiência.
Maria Adelaide Amaral (autora), em um significativo comentário na última semana da minissérie, relata a frustração pelo índice de audiência baixo, ao passo que afirma a certeza de que a minissérie foi uma obra de arte e a satisfação de ver o livro entre os dez mais vendidos do país. Desta forma, por meio das matérias do jornal O Globo, observamos que, se por um lado, a minissérie é vista negativamente com relação à audiência, por outro, ela foi e continua sendo uma referência positiva de adaptação e desempenho dos atores. O fracasso não influiu no objetivo social da adaptação, que – de acordo com seus próprios produtores – era a elevação dos índices da venda do livro de Eça de Queirós. (BRASIL; GOMES; OLIVEIRA, 2004).
Independentemente do número de telespectadores que assistem à minissérie, a influência do romance adaptado para esse público é direto. Os telespectadores ficam curiosos para saber o destino dos personagens, porém os autores, na maioria das vezes, criam outras situações dentro da história para que ela possa ficar no ar entre uma semana a um mês e permitir que a emissora tenha lucro com o produto. E isso muda o final da história frustrando os telespectadores. Daniel Filho (2001), diretor e ator, destaca essa situação: “As pessoas leem os livros, às vezes, para comparar com o que está passando na TV. E os que não leram antes, quando termina o programa, querem ler o livro original”. (FILHO, 2001, p.63)
E, apesar de ser um experimento novo na estética, a audiência de Capitu correspondeu às expectativas da TV Globo, para o ano de 2008.
A média da minissérie foi de 15 pontos, um resultado muito satisfatório, tendo em vista o horário da veiculação e os dias da semana exibidos, como, por exemplo, sexta e sábado, que são dias que a audiência geralmente é o menor na faixa das 23 horas. [...] Pela média, foram mais de 3 milhões e meio de domicílios com seus televisores ligados na Rede Globo, durante a transmissão de Capitu. (BOTTINI, 2019, p.242).
GRÁFICO 1: Pontos (audiência na Grande São Paulo)
Fonte: https://www.estadao.com.br/cultura/capitu-estreia-bem-e-lidera-audiencia-no-horario/
No gráfico acima, vê-se que a minissérie Capitu liderou a audiência no horário. No mesmo horário, a novela da TV Record, Chamas da Vida, permaneceu com 16 pontos no ibope e o programa posterior, Ídolos, também apresentado no horário de Capitu, obteve 11 pontos. Já Revelação, novela do SBT, sustentou os mesmos 9 pontos de ibope que alcançou na noite de lançamento, o que é considerada uma excelente audiência para o horário no SBT.
Como já analisado neste trabalho, uma produção um pouco mais “erudita” tende a afastar o telespectador, mas a adaptação do livro de Machado de Assis soube dialogar com o seu público e a mensagem (a história) foi bem entendida. E, curiosamente, a novela da Record, com apelo mais popular, estava em segundo lugar e, por pouco, não empata com Capitu, ou mesmo a ultrapassa. Nota-se que havia uma curiosidade direcionada à minissérie.
2.4 Capitu: do livro para a TV
De acordo com o site Memória Globo, o elenco da minissérie Capitu fez exercícios diários para ensaiar e compor os personagens, utilizando de exercícios de improvisações, além de participar de debates com psicanalistas, historiadores e comunicadores sobre a obra de Machado de Assis.
O diretor e roteirista Luiz Fernando Carvalho, em seu discurso na ocasião do lançamento da minissérie, ressalta que “o trabalho feito na minissérie como uma aproximação. Por isso, também, optei por um outro título: Capitu. Assim, ficaria mais clara a tentativa de aproximação e não de transposição de um suporte para o outro” (BOTTTINI, 2019, p.173). A estética do programa foi diferenciada, pois ao contrário do cenário que representasse o Rio de Janeiro do século XIX, usaram-se recursos teatrais.
O espectador percebe o trânsito do tempo ao ver, na tela, lado a lado, objetos contemporâneos e vestuário característico do século XIX. Esse é o verdadeiro mosaico temporal proporcionado pela minissérie Capitu, na qual tais usos evidenciam recriação e transcrição. Essas escolhas estéticas não quebram, ao menos acredito, a potencialidade das discussões realistas e verossímeis presentes no enredo machadiano. Sem dúvida, a adaptação ultrapassa, transcende esses elementos, visto que desloca discussões temáticas presas ao século XIX e as atualiza ou enfatiza sua atualidade. Trata-se, enfim, de um modo diferente de dizer o que disse Machado de Assis. (BECKER, 2013, p.21).
Bottini (2019), em seu estudo sobre Capitu, esclarece que a interpretação teatral utilizada na minissérie é a voz com maior projeção, gestos e movimentos mais expansivos e uma atuação próximo do circense que é caracterizado por expressões mais caricatas e utilização de elementos cênicos que reforçam o exagero de sentimentos. O diretor Luiz Fernando Carvalho experimentou uma nova maneira de filmar a produção, como, por exemplo, usando apenas um único espaço – um grande salão do Automóvel Club do Brasil, no centro do Rio de Janeiro – representando os diferentes cantos da memória de Dom Casmurro.
Diferentemente da linguagem naturalista, era um cenário aberto à imaginação dos espectadores. O prédio em ruínas foi apontado pelo diretor como o lugar perfeito para contar a história de um homem em ruínas, que não consegue resgatar o que perdeu. Bentinho se transforma em um prisioneiro patológico de sua própria imaginação e memória, um “doente imaginário”, como frisou Luiz Fernando Carvalho, parafraseando Molière.[11]
Percebe-se que a intertextualidade está presente na adaptação de um livro literário, seja para uma minissérie, novela ou filme. Há muitas críticas que surgem devido aos destinos que o adaptador cria para as obras literárias. No caso de Capitu, o uso de elementos diferenciados do que já é proposto em adaptações exibidas na televisão, trouxe uma proposta audaciosa e nova para o público de minisséries e para o leitor de Machado de Assis. Mesmo utilizando, como base, a história do livro Dom Casmurro, a série empregou outros elementos já citados neste artigo, para que a produção pudesse, também, se distanciar da estética do livro e se tornar uma obra única.
Nota-se ao ver a minissérie, que a intenção era que houvesse mais que uma intertextualidade. Fica claro que se propõe um novo texto e um novo conceito de obra. O diretor Luiz Fernando Carvalho transgrediu a linguagem de uma minissérie de TV, assim como Machado de Assis inovou ao escrever Dom Casmurro, no século XIX. Para Bottini (2019), a minissérie foi muito bem aceita pela crítica na época e teve um orçamento alto de 1 milhão de reais para cada um dos seus cinco capítulos.
Capitu é mais do que um marco em termos de transposição de um clássico da literatura nacional para outro suporte, é uma formidável ocasião para que se possa refletir nas eventualidades hoje acessíveis para divulgação da literatura e da cultura, em particular, e em geral, para a generosidade que se institui na partilha essencial do prazer que a genialidade de um autor como Machado de Assis pode propiciar (RESENDE, 2008).
2.5 A televisão como meio democrático de popularizar a literatura
A importância cultural da televisão brasileira vem aumentando gradativamente ao longo dos anos, especialmente no reconhecimento das obras literárias de Machado de Assis, que têm atraído considerável atenção por meio de inúmeras adaptações. A análise da obra de Machado de Assis pode ser observada por meio de diversos estudos acadêmicos, entre eles o de Santos (2020), que destaca o papel vital da televisão aberta como plataforma de divulgação da literatura brasileira. Segundo o autor, a adaptação de obras literárias para as telas é fundamental para ampliar o público leitor e consolidar a literatura brasileira como patrimônio cultural.
Uma produção recente que exemplifica a valorização da obra de Machado de Assis é a série O Alienista, criada pela Rede Globo em 2018. Guimarães (2019) argumenta que a adaptação para TV foi um meio de democratizar a literatura do autor e torná-la acessível ao público, um público mais amplo. A produção foi elogiada pela crítica televisiva devido a sua qualidade tanto na fidelidade ao texto original quanto na cinematografia. Aruanas, série de streaming de 2019, produzida pela Globo, é outro exemplo de produção recente que homenageia a obra de Machado de Assis. Ele faz referência a várias obras do autor enquanto aborda temas críticos, como preservação ambiental e promoção da conscientização pública. (ALMEIDA, 2020).
Há referências que discutem a relação entre literatura e mídia audiovisual, bem como a influência da televisão na promoção de obras literárias. Orofino e Cunha (2017) postulam que as adaptações audiovisuais têm o potencial de ampliar o acesso às obras literárias e estimular a leitura. No entanto, é fundamental que essas adaptações preservem a complexidade literária das obras originais, como ficou demonstrado na série Capitu.
Freitas e Rocha (2019) analisam a recepção do seriado Sob Pressão, inspirado no conto Pai contra mãe, de Machado de Assis. Os autores destacam a recepção favorável da série por parte do público e sua contribuição para sensibilizar o público e promover a discussão de importantes questões sociais. Adaptar obras literárias para a televisão pode, portanto, ser um meio eficaz de divulgação cultural e estimular o discurso público.
Para Bottini (2019), os textos audiovisuais, atualmente, estão mais próximos da sociedade que consome mais imagem e menos texto escrito. Ainda, de acordo com o autor:
[...] Além disso, é na produção audiovisual que notamos que o acúmulo de ferramentas e tecnologias que podem ser combinadas de tais formas a resultar em novas leituras, novos procedimentos estéticos e contribuir para o desenvolvimento intelectual de todos aqueles – não apenas jovens estudantes – que se proponham a ler determinada obra, no sentido de não serem propagadoras de interpretação dadas, mas que consigam criar seus próprios sentidos perante aquela história [...] (BOTTINI, 2019, p.267).
O fato da obra Dom Casmurro se transformar em uma minissérie, evidencia o interesse da TV Globo e do diretor Luiz Fernando Carvalho com a história, além de ser vista por um número significativo de pessoas. Fatores esses que podem ser indícios do valor literário e comercial de Capitu. A televisão se tornou uma plataforma cada vez mais importante para a divulgação da literatura brasileira e para a celebração de autores como Machado de Assis. Inúmeros programas, documentários e adaptações foram produzidos, contribuindo para a formação de um público leitor mais amplo e diversificado. Como observa Soares (2016), a televisão tem o potencial de democratizar o acesso à cultura e às artes, tornando-as acessíveis a públicos de todas as origens.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este presente estudo teve como objetivo central realizar uma análise, que vai além da simples comparação entre a adaptação de livros para a TV, e contempla também as diferenças linguísticas que caracterizam cada uma dessas formas de mídia. A transformação da imagem durante o processo de adaptação é um fator determinante para o sucesso do resultado final, contudo, é importante destacar que esse processo depende não somente da escrita original do autor, mas também da habilidade do diretor e da equipe de produção em trabalhar em harmonia para alcançar um resultado satisfatório.
A adaptação de livros para a televisão, quando realizada de forma bem executada, pode ser uma estratégia altamente eficaz para popularizar a literatura clássica e torná-la acessível a uma audiência mais ampla. No entanto, esse processo exige muita habilidade e sensibilidade por parte dos envolvidos na produção, os quais precisam se dedicar a um trabalho minucioso e cuidadoso para que a essência da obra original seja preservada.
Em decorrência disso, o estudo observou algumas minisséries, dentre essas, destaca-se Capitu, que foi adaptada do livro Dom Casmurro, nosso objeto de estudo. Por meio da análise das linguagens presentes nessas obras, a investigação da audiência, dos interesses do público, da produção e dos cuidados com a linguagem de Machado, o estudo buscou compreender como a exibição contribuiu para a exaltação da obra de Machado de Assis e se a televisão valorizou os diálogos, os cenários e a narrativa de Machado.
Por meio dele, é possível compreender todo o processo de adaptação de uma obra, desde a qualidade do produto que irá ao ar até a audiência que se pretende atingir. Pode-se concluir que a televisão é uma poderosa ferramenta que pode ser usada para valorizar e popularizar obras clássicas da literatura, como a de Machado de Assis, desde que haja uma consonância entre obra original e diretor e sejam tomados os devidos cuidados para manter a essência da criação original.
Portanto, é possível observar que, ao longo dos anos, a televisão brasileira tem se tornado cada vez mais importante como meio de divulgação cultural e promoção da literatura brasileira. E, nesse sentido, a obra de Machado de Assis tem sido valorizada por meio de inúmeras adaptações e referências em produções televisivas, documentários e programas, contribuindo para a formação de um público leitor mais amplo e diversificado, que tem a oportunidade de conhecer e apreciar o patrimônio literário do Brasil.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALMEIDA, T. de. Machado de Assis na TV: As referências em "Aruanas". Universo HQ, 2020. Disponível em: <https://www.universohq.com/artigos/machado-de-assis-na-tv-as-referencias-em-aruanas/>. Acesso em: 10 abr. 2023.
ASSIS, Machado. Dom Casmurro. São Paulo: Editora Àtica,1992.
ASSIS, Machado. Memórias Póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Editora Ática, 1990.
ASSIS, Machado. Quincas Borba. São Paulo: Editora Ática, 1985.
BECKER, Caroline Valada. Revista Leitura: periódico científico quadrimestral do Programa de Pós-graduação em Linguística e Literatura da Universidade Federal de Alagoas, Maceió, n.51, p.15-41, Jan/Jun 2013. Disponível em: <https://www.seer.ufal.br/index.php/revistaleitura/article/view/1454/980r>. Acesso em: 14 abr. 2023.
BOTTINI, Felipe. TV e Literatura: Hibridismo na teledramaturgia. São Paulo: All Print Editora, 2019.
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CHAGAS, Pedro Ramos Dolabela; MOREIRA, Anny Clarissa de Andrade; ALMADA, Leonardo Ferreira. Complexidade, priming e mind-reading nas “duas fases” de Machado de Assis (num estudo comparativo entre A mão e a luva e Dom Casmurro). Linguística Scripta 2º Quadrimestre, V.26, N. 57, 2022.
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[1] Aluno graduando do curso de Letras do Centro Universitário Newton Paiva, e-mail: alexandre@lanns.com.br
[2] Aluna graduanda do curso de Letras do Centro Universitário Newton Paiva, e-mail: kely00aquino@gmail.com
[3] Aluno graduando do curso de Letras do Centro Universitário Newton Paiva, e-mail: lucashermogenes0602@gmail.com
[4] Aluna graduanda do curso de Letras do Centro Universitário Newton Paiva, e-mail:gsuely@hotmail.com
[5] Aluna graduanda do curso de Letras do Centro universitário Newton Paiva, e-mail: vivianebink16@gmail.com
[6] Mestre em educação, letróloga, pedagoga e historiadora. Professora dos cursos de Letras e Pedagogia do Centro Universitário Newton Paiva. e-mail: gleidesander.prof@newtonpaiva.br.
[7] Agência Brasil - http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2018-02/uso-de-celular-e-acesso-internet-sao-tendencias-crescentes-no-brasil - Acesso em: 23 mar. 20223, às 19h50min.
[8] A Crítica - https://www.acritica.net/editorias/entretenimento/ibope-divulga-audiencia-das-emissoras-do-pais-globo-e-lider-isolada-e/577900/ - Acesso em: 23mar. 2023, às 20h03 min.
[9] Niilismo: ponto de vista que considera que as crenças e os valores tradicionais são infundados e que não há qualquer sentido ou utilidade na existência.
[10] Spin-Off é uma ramificação de uma outra obra. Pode ser um personagem, uma ambientação, um elemento um evento, inserida na obra. No spin-Off ocorre uma transferência de um fato para a obra.
[11] https://memoriaglobo.globo.com/entretenimento/minisseries/capitu/noticia/bastidores.ghtml. Acesso em: 14 abr.2023, às 08h11min.